NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

quarta-feira, 26 de março de 2014

Caos no trânsito

             Dirigir  na cidade é um desafio à paciência e à habilidade de qualquer pessoa. Vivemos uma situação caótica: carros obstruindo cruzamentos, estacionando em zonas proibidas, motoristas buzinando incessantemente demandando preferência. Quando se dá seta, o motorista ao lado encara o sinal como uma afronta fazendo tudo para ocupar o lugar que ele julga ser dele. Proliferação de motocicletas e carros importados de porte avantajado, imprensam ou ameaçam a segurança de veículos pequenos ou compactos preferidos pela classe média. Exacerbada pelo egoísmo, falta de civilidade e de educação doméstica, protagonizamos uma luta de classes motorizada. Insegurança e tensão minimizando qualquer possibilidade de paz no trânsito.

            O trânsito é um palco para manifestações da bipolaridade ética do povo brasileiro, oferecendo um amalgama de comportamentos e atitudes contraditórias. Manifestam-se na maneira agressiva como conduzimos veículos, relacionamos com outros motoristas  ou adjudicamos disputas sobre acidentes. Exigimos publicamente que as leis sejam cumpridas rigorosamente, condenamos corrupção de agentes públicos e insistimos em penas robustas para infratores da lei. Esquecemos desses princípios básicos, no entanto, quando a situação envolve interesse ou responsabilidade pessoal. Pagamos propinas e nos engajamos em outras práticas corruptas para escapar de multas por dirigir sob influência de álcool ou drogas, estacionar em locais reservados para cadeirantes ou simular emergências como uma justificação para bloquear o trânsito. Ignorando o desconforto comum, desde que seja para o nosso próprio beneficio.

            A situação babélica nas nossas ruas, não é causada exclusivamente pelo aumento do número de carros e motos ou pela carência de mobilidade urbana adequada. Falta de civilidade no trânsito é uma parcela significante do problema. Ônibus, taxis e caminhões congestionam as vias, trafegando perigosamente próximo a outros veículos e obstruindo o fluxo na faixa da esquerda. Aparentemente imunes ao Código Brasileiro de Trânsito, motoqueiros agravam a situação usando a linha branca entre as pistas como um corredor exclusivo, fruto do descaso das autoridades. Podemos reverter a situação com policiamento móvel ostensivo,  estrito cumprimento das leis e participação cidadã na resolução dos problemas da violência e insegurança urbana e na busca da convivência pacifica e da cooperação entre as classes sociais.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 16 de março de 2014

O mar de Caymmi

              Entardecer de cobalto descolorindo as ondas. Lençol ondulante, dobras negras de aparência oleosa. Beleza do mar sucumbindo aos rigores da chuva e aos mistérios encobertos pelo véu da garoa. Pequenos barcos de pesca e canoas bamboleando nas águas, movimentos cadenciados pelo vai-e-vem das ondas e o bafejo fresco da maresia.  Patachocas, fêmeas ovígeras de goiamum, caminhando apressadamente na areia em direção ao mar. Abdomens submersos, movimentos rítmicos liberando as larvas na água. Estrutura iluminada de uma plataforma petrolífera, quebrando a hegemonia negra do horizonte. Formando um contraponto visual à chama de gás escapando das entranhas da terra, as luzes bruxuleantes de Salvador.  Suspensa na imensidão do céu escuro com poucas estrelas, a visão luminosa da lua crescente dos Malês da Bahia. Dormimos ninados pela monotonia melodiosa dos pingos de chuva caindo no telhado.
            Dia ensolarado na Ilha de Tinharé. A Quarta Praia do Morro  de São Paulo deserta, longe da balbúrdia do Carnaval no continente. Linhas entrecruzadas na areia batida da maré seca, vestígios de charretes puxadas a burro. Pescadores caminhando apressadamente, atraídos pela noticia da abundância repentina de goiamuns no manguezal. Fim de férias, turistas trocando endereços de e-mails, promessas de reencontros. Ciclista solitário movendo-se sem pressa, parando esporadicamente para coletar excremento equino. Pífia contribuição da prefeitura contra as ameaças meio-ambientais causadas por objetos de plástico descartáveis e derrames de petróleo. Mesmerizados pela miragem brilhante de um ponto na curvatura da baia, caminhamos em busca do horizonte impossível. Devaneios interrompidos por pés cansados...
            Proa da lancha cortando as águas da Baia de Todos os Santos. Navios mercantes, embarcações de luxo ou de pesca artesanal, silhuetas escuras emolduradas pelos últimos raios de sol.  Atracamos próximo à orla da cidade baixa de Salvador, tínhamos uma visão privilegiada  da história do Brasil. Palácios, fortes, igrejas, prédios modernos e favelas transformando as cores e formas das escarpas do nosso descobrimento. Imponente colina da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, chão sagrado de todos os baianos. Massa humana parcialmente invisível na orla, encoberta por centenas de para-sóis de plástico amarelo de uma cervejaria, esquentando o clima dócil da Quarta-feira de Cinzas. Mistérios, crenças, santos e orixás presentes em todas as alturas e nas ondas verdes do mar. Ó Bahia, iaiá... Axé!


Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quarta-feira, 12 de março de 2014

Drogas em domicilio

               Destruição de plantações e interdição de embarques de heroína e cocaína, a estratégia antidrogas dos Estados Unidos por mais de quatro décadas. Guerra incessante contra adversários não convencionais, em lugares distantes, muitas vezes invisíveis. Interceptando ou causando desarticulação de carregamentos de substâncias letais que envenenavam as veias expostas pela turbulência social e o achaque prevalecente nas comunidades excluídas e centros urbanos. Alienação, desespero e exclusão. Criando novas Gothams, sem criar novos super-heróis.
            Mudança importante está ocorrendo: o problema esta migrando das substâncias ilegais para o uso de analgésicos e psicotrópicos receitados por médicos. O grande dilema não é se a política de intercepção teve sucesso, mas como enfrentar o desafio apresentado pelo aumento exponencial no abuso de drogas lícitas, que hoje são as mais prováveis de levar pessoas às salas de emergência. Investigações de uso ilegal de drogas legais e criminalização de programas de tratamento psicoterápico são vistas hoje como peças fundamentais no combate ao uso das drogas. Estamos vivendo com o inimigo dentro das nossas próprias casas, escondido nas farmacinhas e nas mesas de cabeceira.
            Pesquisa nos Estados Unidos em 2010 identificou 1,5 milhões de usuários de cocaína e surpreendentemente, quase cinco vezes mais usuários de psicoterápicos. Mortes por overdose em 2008 somaram 36.450, das quais mais de 60% foram causadas por alguma droga obtida legalmente, excedendo o número de mortes causadas por todas as substâncias ilícitas.
            Abuso de drogas legais ou ilegais deve ser encarado de uma forma multidisciplinar abrangendo todas as facetas do problema. Combate à violência e corrupção oficial; criação de juizados especializados em crimes de menor poder ofensivo, praticados por drogadictos; investimentos em programas de prevenção e tratamento de usuários e educação continuada de médicos, devem complementar esforços de interdição. Anúncios periódicos sobre capturas de carregamentos só servem para criar a falsa impressão de que o problema está sendo resolvido. A chamada “ guerra contra as drogas “ sobreviveu a todas as outras guerras, sem conquistar a vitória tantas vezes anunciada. Bilhões de dólares foram gastos, sem obter os resultados esperados. É hora de mudar a estratégia.  

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores