NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 27 de abril de 2014

O futuro da nossa história

             Demostrando preocupação com as normas de urbanização, segurança e convívio social,  a Câmara de Vereadores da Paraíba aprovou seu primeiro Código de Posturas Municipais, em 1831. Definindo claramente as responsabilidades dos habitantes de preservar edifícios e moradias, o código especificava procedimentos para demolição e reedificação de imóveis em risco de desabamento ou que constituíssem uma ameaça à salubridade pública. Figuravam proeminentemente a manutenção das calçadas e das ruas, como também penalidades e multas pelo não cumprimento ou por danos causados pelos proprietários. Atentos a crescente urbanização da cidade, os legisladores passaram a regulamentar o ordenamento urbano.

            Passados quase dois séculos, a visão futurística dos legisladores da pequena Paraíba foi perdendo-se ao longo do caminho. Aprendendo muito pouco, deixamos nossa cidade crescer desordenadamente à mercê do apetite predatório da indústria imobiliária,  da incompetência ou corrupção do poder público e do nosso romance incontrolável com motores movidos a combustíveis fósseis. A deterioração do centro histórico é um retrato vivo dos efeitos da falta de preservação e de educação patrimonial, da negligência maléfica desvalorizando o espólio patrimonial acumulado desde a sua fundação, como a terceira cidade de um jovem Brasil.

            Preservação do patrimônio histórico é muito mais abrangente e mais sustentável do que o tombamento de bens materiais ou imateriais. É um leque amplo de medidas, desde as intervenções físicas sobre o bem cultural até a formulação de políticas públicas. Lamentavelmente, tombamento é, muitas vezes, a única opção viável devido a ausência de uma cultura preservacionista. Nossa sociedade valoriza o descartável, o novo por ser novo e o imediatismo econômico. Observamos passivamente o nosso patrimônio histórico restaurado, carregando as cicatrizes iradas do pichamento e dos desenhos espampanantes do grafismo. 

            Presentes em todos os aspectos do cotidiano, a evidência dramática da falta de zelo pelo patrimônio, testemunha e ao mesmo tempo livro aberto da nossa história. Abandono e destruição ilegal de imóveis tombados é uma consequência não intencionada da falta de um programa de preservação e de educação patrimonial. Recriar o que supostamente já existia antes não é o suficiente. Políticas públicas relevantes à preservação dos nossos valores culturais, devem  basear-se no passado como um trampolim para as possibilidades econômicas do futuro. 

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Passeio no mundo mágico de Gabo


Caminhávamos pausadamente, degustando os mistérios escondidos atrás das fachadas e das janelas fechadas. Trepadeiras e buganvílias estendiam-se entre as casas para ambos os lados da rua, formando canópias multicoloridas. Abrigos contra o calor asfixiante. Mão invisível nos guiava pelas ruas de Cartagena, buscando o real no imaginário. Mágica cortesia de Gabriel Garcia Marquez, o Gabo de Cartagena.
Estávamos diante da mansão vermelha do grande escritor. Construção contrastando com a beleza austera do prédio localizado na esquina oposta, o antigo convento de Santa Clara. Comunhão inconfortável. Muralhas construídas com pedra e coral separam a casa das águas cristalinas do mar do Caribe, sem ofuscar a vista panorâmica do seu escritório. Lugar perfeito, próximo ao mar, um ou outro sempre perfeito. Cidade-forte de outrora. Religiosa, supersticiosa, muitas vezes, cruel. Receptáculo de uma poção diabólica de extremismo religioso misturado com a tristeza opressora das vítimas da escravidão. Fantasmas sonâmbulos tagarelando incansavelmente na imaginação daqueles que, como Gabo, ousavam desvendar os mistérios nas tragédias e estórias presas nos labirintos da cidade.
Paramos na esquina, contemplando o Convento de Santa Clara, hoje transformado em hotel. A redação do “El Universal” pediu a Gabo para fazer uma reportagem sobre a abertura das criptas funerárias do convento, em outubro de 1949. Farejou a verdadeira notícia em uma lápide aberta no terceiro nicho do altar-mor, cripta de uma adolescente. Cabeleira longa, impetuosamente cor de cobre, transbordava o espaço funerário que a confinara. Tinha mais de vinte e cinco metros de comprimento. O túmulo da Sierva Maria de Los Angeles. Vítima de preconceitos exacerbados pela intolerância, conflitos religiosos e o desprezo dos seus pais, que a obrigaram a viver com os escravos africanos até a idade da sua morte. Lembrança de uma antiga lenda de uma marquesinha venerada no Caribe por seus milagres. Foi aqui que o livro “Do Amor e Outros Demônios” nasceu.
Parque Fernández de Madrid, onde Florentino "a partir das sete da manhã" via Fermina passar, sentado "no banco menos visível". Sobrado branco, balcões adornados com trepadeiras e flores. Antiga residência de um judeu português, que havia sido condenado injustamente pela Inquisição, a casa fictícia de Fermina Daza e seu pai, na novela “O Amor nos Tempos do Cólera”. Seguimos à procura dos amantes. “Torre del Reloj”, “Portal de los Dulces”, o local onde os personagens Florentino Ariza e Fermina se encontraram pela primeira vez. Vivemos o grande romance...
Cartagena não é Macondo. Bacias de frutas equilibradas precariamente na cabeça, mulheres e seios fartos pedem passagem; homens raquíticos empurram carroças, totalmente oblívios às buzinas dos carros; vendedores de esmeraldas competem com seus homólogos vendendo réplicas de “La Gorda” de Botero; homens suados, chapéu de palha escondendo os olhos, procuram romance nos olhos das turistas estrangeiras. Cartagena é Gabo...  E, se “aprender é lembrar”, como ele platonicamente disse, esta é a nossa lembrança de um passeio pelo mundo mágico que ele criou aprendendo a magia esquecida de sua terra...

Palmari H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Nem separados, nem iguais

                                                                                                                           
            Grande e inesperado encontro da História do Brasil com trabalhadores brasileiros. Escavações feitas durante as obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro haviam descerrado as ruínas do Cais de Valongo, o principal local de desembarque e comércio de escravos africanos no Século XIX. Semanas enfurnados nos porões escuros em condições degradantes, um milhão de seres humanos cativos transitaram pelo embarcadouro como “peças” a caminho de mercados de escravos do Rio de Janeiro. Estima-se que 10,7 milhões de cativos haviam sido consignados para as Américas, quase a metade desembarcou na costa brasileira... Valongo, o maior porto escravagista da história da humanidade, é um relicário infame da magnitude e duração do comércio negreiro no Brasil, o último país a abolir a escravatura.

            Parece que existe um acordo tácito para esquecer nosso regime escravocrata, caiando suas manchas vergonhosas da nossa história. Pretendemos ser uma democracia racial, um povo miscigenado e livre de preconceitos raciais, esquecendo convenientemente que a fundação da nossa nação teve sua origem na escravidão. Insensibilidade e descompromisso com a  transformação de escravos livres em cidadãos, viabilizando um projeto socialmente excludente. Desigualdades históricas mantendo a maioria dos afrodescendentes em situações de baixa competitividade e possibilidades limitadas de sucesso em uma sociedade estratificada. Hoje as elites vivem em um mundo particular, onde a segurança, a educação e a saúde privatizadas criam uma malha protetora contra as consequências e os perigos embutidos na exclusão social.

            Racismo e exclusão são vistos hoje como os pilares impedindo o desenvolvimento da população afrodescendente. Leis e programas de ação afirmativa são as peças principais contra o racismo dissimulado prevalecente no Brasil. Membros de elites, acadêmicos e integrantes da mídia argumentam que ação afirmativa subestima a igualdade de oportunidade e meritocracia, conceitos frágeis em um país onde privilégio, nepotismo e contatos, são os caminhos principais para o sucesso, seja político, social ou econômico. Precisamos de um diálogo aberto e democrático sobre nosso passado escravista, estrito cumprimento das leis antirracistas e melhorias nas condições socioeconômicas da população afrodescendente. Programas de ação afirmativa são necessários para nivelar e melhorar o perfil competitivo do povo brasileiro. Deixaremos então de tratar esta nossa população como o que hoje é: nem separada, nem igual.


Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores