NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 27 de maio de 2014

Democracia, se pudermos mantê-la...

            Nova jornada eleitoral se aproxima. Magos do marketing político ocupados, produzindo pronunciamentos bombásticos, extrapolando as conquistas e as qualidades dos seus candidatos em horários eleitorais e outras vertentes midiáticas. Hipérboles, truísmos, desenxabidezes e deslizes da verdade invadindo nossos lares, durante os preciosos momentos de  ociosidade doméstica que nos restam. Embaçados pela fumaça e os vidros dos ilusionistas da comunicação social, agentes políticos carentes de planos, ideias ou mérito, prometendo melhorias sociais, oferecendo benesses e repetindo soluções populistas para todo e qualquer problema. Mantendo o País e o povo nas profundezas do subdesenvolvimento humano e na periferia do progresso.

            Perguntamos: você compraria um carro usado ou um terreno oferecido à preços módicos por um candidato político, após assistir uns tantos segundos de propaganda no horário eleitoral obrigatório? Faça essa pergunta antes de votar, vote de acordo com a sua resposta.

            Democracia é um sistema frágil, as vezes ineficaz, mas é o melhor que temos. Atravessamos o século XX relativamente imunes às vertentes totalitárias do fascismo, nazismo e estalinismo. Convivemos com a guerra fria, sem nos engajarmos nos grandes conflitos bélicos do mundo bipolar. Éramos nós, nossos inimigos. Desigualdades entre classes, raças e regiões nos levaram a um desiquilíbrio interno com consequências drásticas para a nossa nascente democracia, vivemos vinte e um anos pisoteados pela intolerância de uma ditadura militar.  

            Temos uma democracia cada vez mais ameaçada pela combustão explosiva do cinismo dos políticos tradicionais, indiferentes aos anseios da cidadania, e à emergência de movimentos populistas ou anarquistas à esquerda e à direita. Manifestações violentas, militarização da segurança pública e a falta de um diálogo genuíno entre o povo e a elite politíca, não auguram nada de bom para um futuro de convivência pacífica e do progresso democrático.

            A democracia cresce e prospera quando seus elementos constitutivos: a sociedade civil, a liberdade e o progresso se interlaçam em mosaicos mutuamente sustentáveis, sem exclusivismo, domínio de um sobre o outro, ou abdicação de princípios básicos e vocação republicana, embutida na separação dos três poderes. Desequilíbrios e limitações podem transformá-los em ameaças sérias à democracia e à felicidade geral da nossa grande nação. 
             

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Nova roupa do gigante rei


          Vivíamos a irracionalidade exuberante de um povo que parecia haver encontrado a estrada dourada para o seu destino. Projetos faraônicos, promessas de uma revolução classe mediana, construindo o país dos mais: mais médicos, mais bolsas, mais crédito fácil, mais habitações, mais produtos eletrônicos, mais dividas e mais impostos também. Potência econômica emergindo em um mundo complicado, onde os países mais ricos estavam ficando menos ricos. Países menos pobres vendendo matérias primas à preços diferenciados e exportando fábricas manufatureiras para o dragão chinês. Alimentando uma humanidade contaminada pelo vírus do consumismo de genéricos made in China.

            Havíamos chegado ao cume: o Brasil do futebol, samba e pouca roupa, transformando-se na estação galáctica do Império Global da FIFA. Gigante rei acordado abruptamente, irritado pela audácia ingrata dos seus súditos. Manifestações e protestos irados, muitas vezes violentos, invadindo as telas de televisão acostumadas com novelas, Big Brother e shows de auditório. Inefabilidade áurea do seu manto real rasgando-se nas ruas e comunidades excluídas. A vulnerabilidade da nudez exposta, insuficiente para encobrir seus pecados e ofensas contra o patrimônio e a confiança do povo.

            Policiais, motoristas, funcionários públicos e estudantes. Com demandas apresentadas em estilo convencional e com direito a carro de som, camisetas e slogans. Fileiras de pessoas juntaram-se a manifestações expressando seu descontentamento, a hora de ouvir discursos do governo, partidos políticos ou instituições havia passado. Insatisfação prolixa com a situação do país, reagindo aos limites das instituições e do modo de fazer politica de abrigar um dialogo representativo e promover mudanças.
           
            Claramente assimétricas em relação à politica convencional, as reinvindicações especificas das manifestações, cobrem um largo espectro de queixas e demandas contextualizadas em um questionamento genérico sobre a concepção da conjuntura atual, suas prioridades, suas regras e seus atores. Descontentamento geral com os intermediários de um modelo politico que não os representa, com lideres e operadores partidários ou organizações que cada vez menos se diferenciam entre si, vistos como arrogantes, incompetentes e corruptos. O debate e as transformações necessárias na institucionalidade politica, vão mais além da polêmica sobre os programas de governo, partidos ou alianças partidárias. Necessitamos promover uma reforma genuína, com regras e mecanismos que facilitem a participação cidadã, devolvendo o poder ao povo, antes que as nossas cidades, ruas e calçadas se transformem em campos de batalhas fraticidas e palcos de espetáculos de desordem e violência urbana.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

palmari@gmail.com
            

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O tango dos catadores de lixo

            Homem magro, vestido modestamente. Acordeão em péssima condição, tocado sem grande interesse. Doações na caixa preta na calçada. Pessoas passam sem prestar atenção ou colocar moedas. Acordes de “Mi Buenos Aires Querido”, versos cantados pausadamente. Sabor de idos dias felizes, misturado com nicotina e vinho barato. Paixão portenha abrigando a depressão urbana, sob o manto dourado de Carlos Gardel.

            Som de moedas caindo na caixa. O músico anima-se, ensaia pequenos passos de tango enquanto toca. Turistas armados de sacolas cheias de compras, caminham apressadamente. Barulho das rodas das maletas recém adquiridas. Litania de vendedores e cambistas tentando interagir com clientes. Ofertas na língua franca das ruas - todas as variedades e sotaques. Encolhendo os ombros, o músico suspirou como se dizendo: só tenho tango para vender.

            Vultos genéricos movendo-se furtivamente na luz baixa do anoitecer de Buenos Aires. Decadência e pobreza empilhadas nas esquinas da vida. Homens e mulheres bailando o tango da sobrevivência em frente de bares, restaurantes e teatros. Ninguém sabe de onde vêm ou aonde vão. Casa número 000 de uma rua sem nome. “Descamisados” de alhures, “cartoneros” de hoje. Sobrevivendo à perversidade da globalização, criando uma economia paralela, com lixo reciclável.

            Trânsito movimentado ao redor do Obelisco. Uma cidade sempre acordada na penumbra da noite. Corpos grudados contra o rodapé dos edifícios. Crianças brincando. Famílias empilhando material reciclável em cada esquina. Esperando por compradores, uma legião de 100.000 catadores de lixo, sem benefícios sociais, seguro ou equipamento de proteção industrial. Transformando a Argentina em um país exportador de cartão reciclado.

            Olfatos anestesiados pela miséria e matéria orgânica em decomposição. Reciclando latas e cartões, gerando renda e empregos para milhares de excluídos. Aqueles que deveriam ser beneficiários de programas de alivio da pobreza, das Metas do Milênio, aliviando, sozinhos, sua própria miséria. Pessoas humildes são verdadeiros outdoors daquela pobreza que gostaríamos que fosse invisível, catando lixo a céu aberto. Visões diárias que nos envergonham. Dão-nos pena, nada mais. Poucos os consideram ou os aceitam como protagonistas na luta pela sobrevivência do planeta. Inadvertido paradigma do desenvolvimento sustentável...

Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores