NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 24 de junho de 2014

Dilema brasileiro

            Elite branca, o mais novo bicho papão da política brasileira.             Presenciamos mais uma vez a caracterização negativa de um grupo de brasileiros, hostis a certos programas ou gastos do  governo e as inconsistências nas construções eleitorais dos partidários da base governamental.  Incapazes de entender o dilema do povo brasileiro na conjuntura atual: se estamos tão felizes, por que nos sentimos tão inseguros? Dilema evidenciado pela aparente precariedade da inteligência emocional dos jogadores da seleção brasileira, que transformaram um momento de patriotismo verde e amarelo em catarse coletiva, um ritual de purificação e  auto-afirmação.
            Listas de inimigos ou demonização de críticos nos remetem às perseguições da ditadura militar contra pessoas taxadas de subversivas. Campanhas do medo, conspiração da mídia, ataques a jornalistas que expõem a corrupção e incompetência do setor público, e a regulamentação da mídia. Conselhos populares criados para confrontar o Congresso Nacional são a mais recente tentativa, uma tampa na chaleira do descontentamento. Táticas perigosamente autoritárias, com patrulhamento ideológico até acusações de falta de patriotismo, armas outrora usadas para desqualificar críticos e dissidentes. Simulando uma luta de classe virtual -- e perigosamente possível, entre progressistas e reacionários, o equivalente moral da épica batalha entre Gog e Magog. Ninguém segura este país, lembram?

            Viés autoritário do nouveau chavismo brasileiro: o Supremo Tribunal Federal é caracterizado como politizado e injusto, seu presidente hostilizado e ridicularizado; o Congresso Nacional uma instituição incompetente, volúvel e corrupta, dependendo da filiação partidária, que deve ser subestimada ou substituída por conselhos populares. Borrando as linhas de separação de poderes essencial para a viabilização de uma democracia participativa e sustentável.


            Surpreendidos pela eclosão e veemência das manifestações anti-governamentais, a elite política, da direita ou da esquerda, mostrando-se incapaz de encontrar soluções fora da órbita partidária ou dos  conchavos políticos. Descontentamento e desconfiança continuam crescendo contra as nossas instituições, incluindo a seleção nacional. Era de gritos irados e impropérios contra a elite política, que culpa a “elite branca” pelos seus vexames. Finamente temos os ingredientes de uma luta de classe. E só Deus sabe o que o futuro nos trará. Será que ele é ainda brasileiro?


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

sábado, 21 de junho de 2014

Um beco, um padre

            Tentando encontrar lugares que já não existiam, nossos olhos viajando ladeira abaixo à procura dos meandros da nossa história. Estávamos na borda da escadaria do beco da Faculdade de Direito, o nome genérico usando por décadas. Evidenciado pela falta de preservação e abandono, o descaso do poder público e os perigos escondidos na penumbra da noite. Vizinhos ilustres do local sinônimo de marginalia, prostituição e vendas de drogas: a Praça dos Três Poderes, o Palácio do Governo, a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça. Tombados e abandonados. Parede da antiga faculdade maculada por geradores de eletricidade e a rede elétrica; calçamento em péssimas condições, abrigando carros de deputados e vendedores ambulantes. Museu ao ar livre, pragas e decadência urbana expostas, visitação a qualquer hora, entrada franca. Benvindo ao Centro Histórico.

          Retângulo formado pelas ruas paralelas da ladeira e duas avenidas diferenciadas, perímetro da opulência e vida econômica da cidade, abrigando fileiras de casas pequenas, bares e comércios de aparência modesta. Conhecida como Manchúria, a zona do Baixo Meretrício, tinha uma vida quase normal durante as horas do dia. Famílias caminhando tranquilamente, fazendo compras, levando as crianças para a escola ou evitando as calçadas movimentadas do comércio. Portas fechadas, pequenas janelas e campainhas os únicos meios de comunicação. Entendimento cordial entre as donas de prostíbulos e as autoridades. Tempos modernos, o progresso prometido nunca chegou. Imóveis abandonados, trânsito caótico e desordem em todas suas manifestações, vícios urbanos substituindo os vícios da carne.

            Descobrimos, sessenta anos depois de ter morado no Centro Histórico, que o beco atrás de Faculdade de Direito tinha um nome. Chamava-se Rua Gabriel Malagrida, em homenagem a um padre jesuíta que vivera no Nordeste no século XVIII. Propagando a fé verdadeira e reabilitando mulheres vítimas de exploração, fundou abrigos para mulheres que abandonaram a prostituição. Intriga de palácio e suas críticas à Igreja resultaram em acusação de heresia pelo Tribunal do Santo Oficio de Lisboa. Condenado ao garrote e à fogueira, foi executado em um auto-de-fé no Rocio. Estaremos negado a humanidade, martírio,  a busca da justiça e a dignidade do Padre Malagrida se permitirmos, também, a morte agonizante do logradouro.
             

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Aparências e estereótipos

            Paredes, banheiros de metrôs e logradouros públicos nos Estados Unidos, na Europa ou mesmo no Brasil, deformadas com o mantra do emergente Brasileiro Feio: onde nóis chega, nóis bagunça. Deslizes comportamentais e a busca insistente de uma galhofada, justificados pelo culto da esculhambação, molecagem e  completa perda do senso de ridículo. Ignoradas, deturpadas ou simplesmente anuladas pela superficialidade permissiva da cultura contemporânea, regras de coesão social sobrevivem à borda do precipício da involução social. Aparecer ou não aparecer? Eis a questão! – perguntaria o nosso Hamlet.

            Pichações aleatórias em letras misteriosamente similar à caligrafia rúnica dos Vikings, propagando um toque de desordem sem contribuir minimamente para a valorização ou a preservação do patrimônio cultural. Poucas transmitem uma mensagem coerente ou um conceito digno de réplica. Povo invisível aparecendo nas trevas sem libertar-se do casulo da exclusão, existindo na segurança enganosa do anonimato. Infrações à ordem pública, políticos e as autoridades demandando providências sem aplicar as penalidades contra o vandalismo da coisa pública ou da propriedade privada, a nossa nova marca da decadência urbana.

            Inércia governamental e criatividade unindo-se para criar uma nova forma de arte: o grafitismo ou a arte de rua. Romanceado e intelectualmente mais aceitável do que mera pichações, convertendo o Brasil no único país do mundo em que existe uma distinção legal entre as duas modalidades. Duas faces da mesma moeda, com valores diferentes, uma idolatrada e a outra ignorada.  Hoje, a arte de rua brasileira gradualmente gentrificada é uma marca de exportação rivalizando com as obras de artistas convencionais, em preço e importância.

            Gestos e sotaque exagerados, penduricalhos e frutas tropicais que ornamentavam a cabeça de Carmen Miranda foram criticados na época por serem parte do viés capitalista de Hollywood. Décadas depois, continuamos vendendo nossa cultura e imagem da mesma maneira. A diferença agora é que os estereótipos, outrora hollywoodianos, são produzidos na Visconde de Sapucaí, nos estúdios de TV e pela propaganda midiática enfatizando o hedonismo, hospitalidade e hilaridade do nosso povo. Derrières de mulheres brasileiras em outdoors, brochuras turísticas e em propaganda institucional, competindo lado-a-lado com severas advertências sobre turismo sexual e penalidades previstas para os infratores. O importante é aparecer?

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores