NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Avesso do avesso

            Mutações de Rita Lee invadindo o espaço urbano com a  contundência insistente do vento frio da noite. Ostentando longas cabeleiras vermelhas, duas mulheres caminhando em perfeita sincronia com as passadas insistentes, quase masculinas, de uma mulher rubenesca. Timoneira de uma arca carregada de pares e ímpares da espécie humana à procura da poção mágica do pecado genérico, mistura de contravenções e diversões. Desapareceram rapidamente no cânion de concreto, como se hipnotizados pelo mistério escondido nas sombras, transformando-se em escuridão. Pessoas retornando às suas libações, conversa de mesa de bar e os selfies obrigatórios. Cantarolando músicas antigas com letras interessantes, algumas parecendo possuídas pela sensualidade do repertório musical. Desafinados cantando baixinho para os amores do momento. Alguma coisa acontecendo na esquina da Ipiranga com a Avenida São João.

            Manifestantes empunhando bandeiras vermelhas, chavões de protestos reivindicatórios, marchando ao som de tambores indígenas. Passos deliberados, olhos fixos na calçada, calculando mentalmente a distancia à percorrer, pessoas olhando de soslaio sem gestos de empatia. Protestos considerados ácaros incômodos, povoando pequenas área do lençol de concreto cobrindo a imponência da avenida. Tropas de choque posicionadas discretamente na parte posterior de um edifício vermelho, camuflados por fileiras de pôsteres de uma exposição ao ar livre. Museu de arte, lugar estratégico para a supressão de qualquer possibilidade de desacato ou perturbação da  ordem pública. Mulher jovem tocando um piano elétrico na calçada, repertório eclético e agradável oferecendo uma distração momentânea, uma oportunidade de fazer algo diferente. Acordes de Para Elisa de Beethoven, invadiram nossa mente...

            Mansão abandonada, presença humana de um cadeirante solitário, guardião do templo da oligarquia de alhures. Traços irados de pichações e desgaste material acrescentando uma sensação de perigo, um lugar fantasmagórico sem música, sons ou almas penadas. Terminal de telefone público, formato de capacete transformado em uma escultura com antebraços e mãos de tamanhos diversos e cores fulgurantes, Medusa urbana. Arte vencendo o vandalismo aleatório. Anoitecer escondido nos mistérios da garoa,  protegido por um vento frio e cortante. Dormiríamos todos ao som de uma sinfonia de sirenes e gritos de miséria humana, confortáveis em quartos com calefação ou deitados lado-a-lado como dormentes nas calçadas frias da grande metrópole.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Bang-bang no Brejo

   
            Chegando e partindo misteriosamente durante o Carnaval, dois homens vestidos de caubóis hollywoodianos, olhos parcialmente cobertos pelas abas do chapéu. Cheiravam a perigo genérico, daquele que amedronta indiscriminadamente. Caminhando com passos ensaiados, percorrendo o trajeto da pequena estação de trem até a rua principal. População acompanhando a trajetória dos visitantes misteriosos com uma mistura de surpresa e reverência. Conhecidos filhos da terra que haviam migrado para o Sul em busca de dias melhores. Povo na rua principal prontos para testemunhar o desenlace da caminhada. Fantasia, diversão e suspense, sem comprar ingresso para o cinema do padre ou sonhar acordado nas noites frias do Brejo. Crianças seguiam o estranho cortejo sorrateiramente, o clima de antecipação pontuado por risinhos nervosos.

            Adolescente franzino, mais alto que seus comparsas, seguindo os caubóis passo-a-passo, olhos colados nas temerosas pistolas, os homens desaparecendo subitamente pela porta vai-e-vem do Bar do Seu Telfani.  Clima de expectativa e silêncio geral, quebrado repentinamente por dois disparos de arma de fogo, quase simultâneos, tão próximos que ressoavam como ecos distantes. Pessoas saindo sem muita pressa, testemunhas do drama que acabara de acontecer no interior do modesto estabelecimento. Comentários ricos em detalhes e fantasia sobre a arquitetura do embate, seus protagonistas e seu desenlace trágico-cômico pavimentaram as ruas e calçadas da cidade.

            Nosso interlocutor, olhos fixos em um ponto no horizonte do seu cérebro, contando a versão mais popular do evento. Ouvira a história repetida vezes por seu pai, durante viagens no ônibus de sua propriedade. Parte da biblioteca de lendas da cidade, parte mito da sua infância.
           
            Era uma vez dois caubóis confortavelmente sentados em lados opostos do pequeno salão do bar de Seu Telfani. Pedindo um uísque duplo em voz alta, o homem do lado direito encarando seu opositor com desdém e gestos de chauvinismo alcoólico. Bebendo tranquilamente um copo de leite fresco, seu algoz reciprocou  a ofensa contundentemente com impropérios e desafios à sua hombridade, parecendo fortalecido moralmente pela ingestão do laticínio. Basta! Gritou a parte ofendida. Pistolas fora das bainhas, gatilhos pressionados com perícia e alacridade, os dois tombaram no chão duro e  poeirento, sem emitir ao menos uma palavra ou gemido. Drama carnavalesco de dois filhos da terra, trabalhadores em lugares longínquos, heróis de um povo coberto pela neblina da serra. Retornariam no ano seguinte. Corte!

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores
     

quinta-feira, 17 de julho de 2014

E agora José?

            O Brasil pode se orgulhar da Copa do Mundo. Obtivemos a média 9,25, uma melhoria em relação a África, leitura condescende anunciada pelo Presidente da FIFA e seus acólitos. Enorme suspiro de alivio ressonou no Palácio do Planalto e entre os patrocinados do maior “pão e circo” da terra, seguido de enfadonhas avaliações positivas e declarações autocongratulatórias. O desenlace desastroso da partida entre a Alemanha e o Brasil, quase submerso pelo entusiasmo da multidão babélica de torcedores; gigantesca audiência televisiva global; lucros delirantes dos patrocinadores e empresários e o clima de antecipação circense com a pompa e circunstância da decisão final do grande certame. Prelúdio de uma gigantesca e duradoura Quarta-feira de Cinzas.

            A mordida vampiresca de Suarez; a joelhada covarde de Zuñiga; o jato negro carregado de dólares e a parca inteligência emocional dos jogadores brasileiros, fatos relegados a meros coadjuvantes. Surgindo um novo herói, Mario Gotze, jovem de vinte e dois anos, o autor do toque mágico que transformou a Alemanha no novo ícone do futebol. Menino Dourado sem nunca ter sido um Menino do Brasil, em um país carente de heróis nascidos pós-reunificação

            Algo cheira mal na FIFA. Improbidade administrativa, interferência de governos, suborno de juízes e dirigentes, as mais graves acusações contra a entidade gestora do futebol mundial. Eclodindo durante a Copa do Mundo, um escândalo de vendas ilegais supostamente comandadas por um executivo da Match, a companhia responsável pelo fornecimento de ingressos do evento, atualmente preso no Rio de Janeiro. A CBF não está imune às mesmas criticas e acusações. Tentativas de investigar a entidade, no entanto, continuam bloqueadas por parlamentares da "bancada da bola" do Congresso, todos ligados à CBF e a times de futebol.

            Desde a ascensão de Sepp Blatter em 1998, quase a metade dos membros do comitê executivo da FIFA já foram acusados de deslizes éticos. Embora nenhuma das acusações sejam dirigidas ao seu mandatário, a relutância institucional em  investigar ou punir os dirigentes atiçam as chamas de suspeição que permeia todos os aspectos do esporte, mesmo uma exitosa Copa do Mundo. Futebol é uma força importante no cenário esportivo mundial, fonte de inspiração para milhares de jovens à procura de rota de escape da exclusão social. A FIFA e seus afiliados devem higienizar e transformar o esporte em uma atividade honesta, saudável e respeitosa com a integridade física e moral dos seus atletas. Fair-play, dentro e fora do gramado, a ordem do dia.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Sarapatel partidário

            Partidos políticos e ideologias transformados em massa amorfa, incolor e insipiente.  Manifestos e declarações anunciando ou denunciando novas e antigas alianças políticas sem nenhuma conexão com a conjuntura atual, os sonhos ou pesadelos do eleitorado. Ódios e interesses pessoais cavalgando unidos na Estrada de Damasco que inventaram. Todos comprometidos, seguros nas suas selas, parecendo dizer cinicamente: os rebanhos de ovelhas sempre nos seguirão. Desdenhando tudo que fosse moral, ético ou coerente. Ofuscados pelo nevoeiro da ignorância servil, memórias e recordações dos pecados, perfídia ou mediocridade dos cavaleiros. Políticos subvertendo o processo democrático com promessas de benesses, cargos de confiança para parentes ou apadrinhados e privilégios obtidos através do pragmatismo dos maratonistas do poder. Vitória a qualquer custo, moral ou financeiro. 

               Uma reflexão do escritor inglês Gilbert Chesterton sintetiza fielmente atitudes atuais sobre o modo de fazer política no Brasil: “[...] Eles disseram que eu deveria perder meus ideais e começar a acreditar nos métodos de políticos práticos. Agora, eu não perdi meus ideais, no mínimo, a minha fé nos fundamentos é exatamente o que sempre foi. O que eu perdi foi a minha fé infantil na prática política.” Sentimentos ecoados por quase 65% de eleitores jovens brasileiros, quando perguntados se os políticos representavam o interesse da população. A percepção de que os adolescentes têm da política e dos políticos geralmente gira em torno da corrupção;  campanhas e coligações eleitorais não são capazes de evocar imagens positivas. Paradoxalmente,  o voto aos dezesseis  anos foi uma conquista do movimento estudantil, incorporada à Constituição de 1988.

                Corrupção adquirindo características endêmicas no cenário político partidário brasileiro. Coligações e candidatos prometem acabá-la, renegando a promessa  prontamente, quando chegam ao poder. Tornando-se  incapazes de  penetrar as barreiras erguidas pelo grande comprometimento corrupto entre os detentores e manipuladores do poder. Grande confusão de valores mentais, associada ao oportunismo cínico e pessoal, confundindo a coisa pública com o indivíduo. Tomando o valor prático do pragmatismo econômico como critério da verdade e criando uma falsa meritocracia como vigas de sustentação da espécie política que floresce nos pântanos da nossa imaturidade democrática.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores