NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Bang-bang no Brejo

   
            Chegando e partindo misteriosamente durante o Carnaval, dois homens vestidos de caubóis hollywoodianos, olhos parcialmente cobertos pelas abas do chapéu. Cheiravam a perigo genérico, daquele que amedronta indiscriminadamente. Caminhando com passos ensaiados, percorrendo o trajeto da pequena estação de trem até a rua principal. População acompanhando a trajetória dos visitantes misteriosos com uma mistura de surpresa e reverência. Conhecidos filhos da terra que haviam migrado para o Sul em busca de dias melhores. Povo na rua principal prontos para testemunhar o desenlace da caminhada. Fantasia, diversão e suspense, sem comprar ingresso para o cinema do padre ou sonhar acordado nas noites frias do Brejo. Crianças seguiam o estranho cortejo sorrateiramente, o clima de antecipação pontuado por risinhos nervosos.

            Adolescente franzino, mais alto que seus comparsas, seguindo os caubóis passo-a-passo, olhos colados nas temerosas pistolas, os homens desaparecendo subitamente pela porta vai-e-vem do Bar do Seu Telfani.  Clima de expectativa e silêncio geral, quebrado repentinamente por dois disparos de arma de fogo, quase simultâneos, tão próximos que ressoavam como ecos distantes. Pessoas saindo sem muita pressa, testemunhas do drama que acabara de acontecer no interior do modesto estabelecimento. Comentários ricos em detalhes e fantasia sobre a arquitetura do embate, seus protagonistas e seu desenlace trágico-cômico pavimentaram as ruas e calçadas da cidade.

            Nosso interlocutor, olhos fixos em um ponto no horizonte do seu cérebro, contando a versão mais popular do evento. Ouvira a história repetida vezes por seu pai, durante viagens no ônibus de sua propriedade. Parte da biblioteca de lendas da cidade, parte mito da sua infância.
           
            Era uma vez dois caubóis confortavelmente sentados em lados opostos do pequeno salão do bar de Seu Telfani. Pedindo um uísque duplo em voz alta, o homem do lado direito encarando seu opositor com desdém e gestos de chauvinismo alcoólico. Bebendo tranquilamente um copo de leite fresco, seu algoz reciprocou  a ofensa contundentemente com impropérios e desafios à sua hombridade, parecendo fortalecido moralmente pela ingestão do laticínio. Basta! Gritou a parte ofendida. Pistolas fora das bainhas, gatilhos pressionados com perícia e alacridade, os dois tombaram no chão duro e  poeirento, sem emitir ao menos uma palavra ou gemido. Drama carnavalesco de dois filhos da terra, trabalhadores em lugares longínquos, heróis de um povo coberto pela neblina da serra. Retornariam no ano seguinte. Corte!

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores
     

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