NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Jornada e legado de Napoleão Laureano


           Palavra nova penetrando intempestivamente no meu dicionário infantil: câncer. Dez anos de idade, cercado por um mundo adulto aterrorizado, constrangido, supersticioso e à mercê de um abutre maléfico que pairava sobre nossas vidas à espera de carcaças. Rádios, jornais e revistas falando timidamente sobre a saga daqueles escolhidos para uma morte certa, por um mal que desconhecia todas as convenções. Pessoas caminhando pelas ruas, marcados com data de expiração. Silêncio cúmplice, sepulcral. Ninguém ousava falar sobre o assunto na presença de pessoas vivendo em tempo emprestado. Adultos sussurrando meias palavras, truísmos e aforismos, quando conversavam sobre a doença nas nossas casas e lugares públicos. Pedra da Roseta humana criptografando perigos e medos, nossos ou deles, reais ou imaginários. Começo da década de cinquenta no cotidiano previsível da rua em que vivíamos, avenida Capitão José Pessoa, no bairro de Jaguaribe.

            Próximo, bem próximo a nós, uma tragédia se desenrolava: um médico, Napoleão Laureano, anunciando que padecia de câncer, declarando-se condenado pela medicina que o ajudara a salvar vidas. Transformando o perigo imbuído na precariedade da sua situação de saúde em uma oportunidade de promover uma companha em prol dos cancerosos do Brasil. A demora no diagnóstico, ressaltava, foi devido à falta de aparelhagem na Paraíba, o diagnóstico precoce aumentaria a perspectiva de cura, a primeira barreira a ser vencida.

            Jornais mantendo a população informada sobre a estado de saúde do paciente hospitalizado no Rio de Janeiro, carecíamos de um centro de tratamento do câncer. Napoleão Laureano Faleceu no dia 31 de maio de 1951, longe da sua terra, provocando uma descarga emocional coletiva, o desenlace da tragédia penetrando os cantos mais longínquos da cidade.  Cortejo fúnebre, massa humana ziguezagueando pelas ruas, corredeiras de lágrimas confluindo na praça do Cemitério Senhor da Boa Sentença. Unidas na dor e pela esperança solidária, pessoas de todas as classes sociais, caminhavam em reverência silenciosa. Último adeus ao médico mártir, que vivera e morrera por todos nós. O altruísmo corajoso do seu gesto e a força moral do seu apelo, persuadiram lideres políticos, a classe médica e a sociedade civil a se unirem para realizar sua desiderata: um centro de assistência hospitalar para os cancerosos.  

            Observamos a construção do nosocômio nas nossas idas e vindas de adolescente e jovem adulto, morávamos na vizinhança. Passagens rápidas, olhando discretamente de soslaio, a misteriosa doença ameaçava a todos nós. Medo infundado de contágio competia com os avanços científicos, óbitos continuando a dominar os noticiários. A gestação do sonho de Napoleão Laureano durou quase dez anos, hospital inaugurado em 1962.

            Recebemos a notícia sobre o estado de saúde do nosso pai, Tenente Lucena, quase duas décadas depois da nossa última passagem pela rua do hospital, Jaguaribe tornara-se parte do nosso passado. Padecia de câncer de próstata, preconceitos sobre exame intrusivo havia eliminado a possibilidade de um diagnóstico precoce, a doença avançara sem controle. Prostatectomia radical seria a única alternativa. Possibilidade rejeitada enfaticamente pelas suas limitações pós-operatórias, anos de sofrimento seguiram. Vivendo em tempo emprestado, o câncer alastrando-se impiedosamente. Visitou-nos em Gana, passagem pela África seu grande e talvez o último dos seus sonhos. Faleceu no dia 9 de julho, quase trinta anos depois da abertura do Hospital Napoleão Laureano, a cem metros da casa onde vivíamos na Vila dos Motoristas.

            Central Park de New York, lugar improvável para uma recordação da batalha de Napoleão Laureano contra o câncer. Meio século separava-nos da memória e do evento em que participávamos: Marcha da mulher contra o câncer.  Unidos pela universalidade da doença, um mosaico de todas as raças, religiões, nacionalidades, gênero ou classes sociais, muitos sobreviventes ou pessoas em tratamento quimioterápico.

            Liderávamos um grupo de colegas da ONU, homens e mulheres comprometidos a caminhar cinco milhas, todos apoiados por doações monetárias de patrocinadores individuais, os recursos angariados seriam entregues a entidades de combate ao câncer. Alguns colegas comemoravam a vida, suas próprias vidas. Outros carregavam pequenas placas com nomes de pessoas e parentes, vitimas ou sobreviventes da doença. Homenageamos Napoleão Laureano, Tenente Lucena, um médico amigo e celebramos a cura de uma colega de ginásio. Participamos ou apoiamos atividades temáticas de maratonistas, ciclistas, marchas com caninos, leilões, festivais, vendas de livros de culinária e feiras na comunidade. Captação de recursos para programas de pesquisa, educação, prevenção e disseminação de novas modalidades de tratamento, a sociedade civil respondendo ao apelo que ouvíramos pela primeira vez em João Pessoa.

            Buscando subsídios para esta matéria, visitamos recentemente o hospital pela primeira vez. Entramos deliberadamente, livres dos medos ou preconceitos de outrora. Caminhamos  por instalações modernas, limpas e inclusivas. Membros do corpo clínico e administrativo, muitos nascidos antes de sua inauguração, reunidos, todos honrando o sonho e o legado que sobrevivera ao martírio de Napoleão Laureano, mais de meio século havia passado. Conversamos sobre planos para a participação da sociedade civil e do empresariado na comemoração dos cem anos de nascimento Compartilhamos momentos de esperança, comprometimento e solidariedade, o espírito do patrono nos guiava...
  
Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores