NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Preconceito e insegurança


            Democracia racial, um dos mitos mais duradouros da sociedade brasileira. Negado enfaticamente pela maioria da população, preconceito racial é visto como algo estrangeiro ou distante, embora todos admitam conhecer algum racista. Entre meus melhores amigos encontram-se negros, é uma desculpa usada frequentemente para maquiar atitudes racistas ou preconceituosas. Evidência sugere o contrário, o racismo é tão brasileiro como a feijoada, o samba e a cachaça. Representando mais da metade da população, afro-brasileiros figuram entre as principais vítimas da violência, têm o menor grau de escolaridade, os menores salários, a maior taxa de desemprego e uma participação minoritária na economia do País, 20% do PIB.

            Precariamente  representados nos Três Poderes,  setor privado ou na mídia eletrônica, sucesso como jogadores de futebol e na música popular é usado para mitigar críticas de organismos internacionais, organizações não-governamentais e entidades religiosas. Hierarquias raciais são culturalmente aceitas como normais em alguns órgãos do Estado. Estrutural e institucionalizado, o racismo permeia todas as áreas da vida, nos revela um relatório da ONU.

            De acordo com a UNICEF, o Brasil é o vice-campeão mundial no número de homicídios de jovens até 19 anos. Constatando e anunciando ao mesmo tempo, o Mapa da Violência de 2014, mostra a cruel realidade da descriminação racial e marginalização de gerações de adolescentes negros. Oprimido servindo como seu próprio opressor, transformando-se na nêmese de sua própria gente, o jovem negro tem três vezes mais chances de ser morto do que o branco.           

            Autos de resistência, álibi usado frequentemente para isentar policiais que agem de forma violenta, fomentam um clima de desconfiança e impunidade na segurança pública. Brutalidade policial é denunciada frequentemente pela mídia e a sociedade civil, poucos dos suspeitos são julgados, muito menos condenados. Transformação do modelo militarizado da polícia em uma estrutura democrática sob o controle civil é um passo fundamental na criação de uma sociedade igualitária. Fim de abordagens policiais baseadas em perfis raciais, faixa etária e aparência física, seria um passo crucial nas relações entre a cidadania e policiais. Políticas de segurança enfocando a dicotomia do nós-contra-eles, a ocupação de comunidades e controle de manifestações obtêm resultados na manutenção da ordem pública cujos efeitos nem são duradouros ou sustentáveis sem o uso desproporcional do aparato militar e a deterioração da imagem das forças de segurança,

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Na casa de Pablo Neruda


            Lembranças das Águas de Março de Tom Jobim nos acompanharam pelos jardins, salas e nichos de La Chascona, a casa de Pablo Neruda em Santiago. Ora estávamos em um esconderijo de amantes, ora em um barco à deriva no Oceano Pacifico... Holandês Voador sem castigos, presságios, medos ou fantasmas. Convite à reflexão, cheiro de paz e flores ao nosso redor, a mão invisível do poeta nos levando por pequenas lembranças, pedaços de coisas avulsas,  garrafas coloridas e amuletos. Olhos mágicos, carrancas e máscaras acompanhando nossa marcha pelo labirinto de pequenas salas, entradas secretas e jardins floridos. Coisas açambarcadas aleatoriamente, sem obedecer a nenhuma ordem, preferencia ou estilo, contextualizando a organização do ambiente. Curador e colecionador construindo um universo mágico, criações poéticas transformando a materialidade em objetos amados loucamente.
           
            Caminhamos pausadamente buscando pequenos achados arqueológicos, abrigados  em cantinhos pouco iluminados ou óbvios demais para serem facilmente desagregados. Felicidade sábia da velhice rememorando a tristeza melódica e a dor profunda do Poema XX, recitando baixinho as últimas estrofes escritas para amores de uma juventude tão distante, perdidas no infinito. Dores sentidas, restando somente as noites estreladas e o silêncio dos astros adornados pelo poeta. Vozes ressonando na imensidão do horizonte que ele nos havia ensinado.
           
            Mulher e homem idosos explicando como começara o romance das suas vidas, meio século de  amor comemorado em La Chascona. Poemas recitados ou enviados em bilhetes coloridos pelo fervor juvenil.  Paixão imbuída nas palavras, demonstrações de ternura e a sonoridade dos versos haviam unido os jovens amantes. Descobrindo depois que o autor das manifestações poéticas era Pablo Neruda. O homem que amava havia se apropriado das criações poéticas para transmitir a intensidade do seu amor e o desejo de juntar suas vidas. Tardia e perdidamente apaixonada, simplesmente aceitou a paixão dos versos como para ela escritos.
           
            O ninho de amor de Pablo e Matilde, o lugar de partida ou retorno das aves que voaram para bem longe, atravessando mares, cruzando espaços, perdendo ou achando seus rumos.  Cantando versos que fazem com nossas almas o que a primavera faz pelas cerejeiras.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores