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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Na casa de Pablo Neruda


            Lembranças das Águas de Março de Tom Jobim nos acompanharam pelos jardins, salas e nichos de La Chascona, a casa de Pablo Neruda em Santiago. Ora estávamos em um esconderijo de amantes, ora em um barco à deriva no Oceano Pacifico... Holandês Voador sem castigos, presságios, medos ou fantasmas. Convite à reflexão, cheiro de paz e flores ao nosso redor, a mão invisível do poeta nos levando por pequenas lembranças, pedaços de coisas avulsas,  garrafas coloridas e amuletos. Olhos mágicos, carrancas e máscaras acompanhando nossa marcha pelo labirinto de pequenas salas, entradas secretas e jardins floridos. Coisas açambarcadas aleatoriamente, sem obedecer a nenhuma ordem, preferencia ou estilo, contextualizando a organização do ambiente. Curador e colecionador construindo um universo mágico, criações poéticas transformando a materialidade em objetos amados loucamente.
           
            Caminhamos pausadamente buscando pequenos achados arqueológicos, abrigados  em cantinhos pouco iluminados ou óbvios demais para serem facilmente desagregados. Felicidade sábia da velhice rememorando a tristeza melódica e a dor profunda do Poema XX, recitando baixinho as últimas estrofes escritas para amores de uma juventude tão distante, perdidas no infinito. Dores sentidas, restando somente as noites estreladas e o silêncio dos astros adornados pelo poeta. Vozes ressonando na imensidão do horizonte que ele nos havia ensinado.
           
            Mulher e homem idosos explicando como começara o romance das suas vidas, meio século de  amor comemorado em La Chascona. Poemas recitados ou enviados em bilhetes coloridos pelo fervor juvenil.  Paixão imbuída nas palavras, demonstrações de ternura e a sonoridade dos versos haviam unido os jovens amantes. Descobrindo depois que o autor das manifestações poéticas era Pablo Neruda. O homem que amava havia se apropriado das criações poéticas para transmitir a intensidade do seu amor e o desejo de juntar suas vidas. Tardia e perdidamente apaixonada, simplesmente aceitou a paixão dos versos como para ela escritos.
           
            O ninho de amor de Pablo e Matilde, o lugar de partida ou retorno das aves que voaram para bem longe, atravessando mares, cruzando espaços, perdendo ou achando seus rumos.  Cantando versos que fazem com nossas almas o que a primavera faz pelas cerejeiras.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

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