NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Globalização do medo

            Globalizado pela exaltação midiática, Ebola converteu-se no pôster de uma campanha de prevenção: informações arrepiantes e lendas urbanas transformando o preconceito em medo e o medo em preconceito. Ambulatórios e hospitais recusando atender pessoas com aparência ou vestimenta africana, demanda de quarentena para todas as pessoas que transitaram em áreas endêmicas, passageiros recusando-se a embarcar em aeronaves com africanos ou procedentes da África. Paradoxalmente, os sempre-disponíveis demagogos da miséria e celebridades exaltando organizações humanitárias e competindo na captação de donativos, muitos sem observar critérios mínimos do uso de recursos financeiros e materiais de uma maneira eficiente e sustentável. Desventurados da terra, os Africanos são sempre um bom veículo para expiar sentimentos de culpa nutridos pela tendência ao assistencialismo da tradição judaico-cristã, a vergonhosa trajetória do trafico escravagista e séculos de colonialismo europeu.  

            Críticos acusando pessoas de comportamento histérico, externando reações desproporcionais aos riscos comprovados cientificamente, embora considerados verdadeiros. Medo não é provocado singularmente pelo fator risco, a alienação das pessoas dimensiona e nutre sentimentos de perigo iminente. Apesar do progresso tecnológico, vivemos hoje em uma sociedade segmentada. Pessoas separadas pelo aumento da distancia entre classes sociais, desconfiadas das lideranças, sejam elas políticas, empresariais ou científicas. Elas não dão crédito aos ocupantes de posições de autoridade ou confiam em suas intenções. Nas últimas décadas, testemunhamos um aumento pernicioso na distância entre as classes sociais, tendência manifestada pelas poucas possibilidades de uniões, interações ou associações de níveis ou padrões de vida dissimilares.

            Ebola é a encarnação biológica do medo e suspeição atribuídas ao fenômeno da globalização, força misteriosa, crescendo incontrolavelmente em lugares distantes, capaz de invadir as ilhas de isolamento em que vivemos. Medo existencial diferente daquele que sentimos na flor da pele. Fronteiras porosas e autoridades nacionais parecendo incompetentes quando nossa segurança é comprometida por uma ameaça que mal entendemos. Ebola é um adversário traiçoeiro que invade as fraquezas do nosso organismo, pior ainda, ele floresce espalhando terror pelas falhas e fissuras do nosso tecido cultural.


Palmarí H. de Lucena e membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 26 de outubro de 2014

Em louvor à solidariedade

             Concluído o exame físico e a conversa sobre os testes de laboratório, o assunto mudava para nosso interesse comum: o problema da fome e da miséria. Ritual de médico e paciente, transformando-se em um momento de solidariedade humana. Trabalhávamos na África coordenando um programa de ajuda humanitária da Igreja Católica. Roger, nosso médico, fechava seu consultório na 5a Avenida de New York City, passando seu mês de férias voluntariando como infectologista na Tanzânia e países limítrofes: tratava pacientes aidéticos, parentes e amigos arrecadavam doações. Próxima consulta, mesma época no ano seguinte.

            Sentimos febre e dor de cabeça durante uma parada em Johanesburgo.  Quando chegamos em Moçambique, a seriedade da doença tornou-se evidente, fomos trasladados para um hospital em Zimbabué devido à carência médica. Diagnóstico preliminar: malária cerebral com possíveis complicações neurológicas. Acordamos precariamente depois de sono que parecia haver durado muitos dias. Mão cheirando a detergente hospitalar enxugando o suor do meu rosto, sensação reconfortante. Próximo à cama, um religioso sussurrava uma prece, extrema unção. Pessoas de bata branca em voz baixa, a única palavra que ouvimos: febre tifoide. Sobrevivemos.

            Magro, debilitado, passadas inseguras. Encontramos nosso salvador pela primeira vez. Jovem médico australiano voluntário no hospital questionara o diagnóstico inicial com veemência, mesmo sem condições de realizar o teste de Reação de Widal. Elegeram a nova opção de tratamento baseada na sua experiência. Após a alta, descobrimos que estávamos entre os quase 33 milhões de casos de febre tifoide e fora dos 216.000 óbitos anuais em áreas endêmicas.

            A mídia norte-americana confirmou que Craig Spencer, médico voluntário da ONG Médicos Sem Fronteiras, atestou positivo para Ebola. Internado em um hospital de emergência da cidade de New York, acionara o serviço médico após sentir sintomas da doença. Chegara da África Ocidental recentemente, onde trabalhava numa região endêmica de Guiné.

            O espectro de uma calamidade de grandes proporções paira sobre todos nós, todos os povos e nações. Precisamos de mais Rogers e Craigs, médicos sem fronteiras que acreditam na humanidade, em situações onde a mitigação ou mesmo a cura de uma enfermidade aparenta ser impossível. Surgem voluntariamente sem bandeiras, ideologias ou promessas de compensação. Verdadeiros heróis movidos pelo altruísmo e o comprometimento da vocação.

Palmari H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O mundo atrás das grades

             Grades metálicas, um dos poucos produtos manufaturados em crescente demanda. Compradas para proteger-nos de pessoas indesejáveis ou para mantê-las encarceradas quando cruzam o Rubicão, penetrando nossas redes de proteção social.  Desenvolvimentismo predatório e negligência do poder público convivendo lado-a-lado, diminuindo ou ofuscando a separação entre o espaço privado e o espaço público. Condicionando as relações da sociedade contemporânea em comportamentos de medo e insegurança.
           
            Cultura urbana nutrida por duas vertentes contraditórias: a supervalorização do indivíduo e a sua fragilidade/vulnerabilidade, interlaçados precariamente na bipolaridade da arquitetura do medo. Encurralados na imensidão anônima da globalização, o indivíduo procura maneiras de classificar-se como socialmente superior, elevando seu status diante de grupos de indivíduos ou uma classe social. Tornando-o assim uma pessoa valorizada, dotada de múltiplas virtudes. Doutor Fulano, Empresária Sicrana, ou o Consultor Beltrano, são status ou etiquetas culturais, profissionais e pessoais que transformam o indivíduo em alguém hierarquicamente mais valorizado do que outrem. Perpetuando a noção de que as pessoas diferenciadas estão sempre ameaçadas ou expostas à classe perigosa, na busca constante de segurança e proteção daqueles considerados socialmente inferiores.

            Refletindo a dicotomia valorizado/vulnerável, a arquitetura do medo promove uma cultura de cerceamento da liberdade e da desapropriação informal de parcelas do espaço público através de grades, muros, calçadas com acesso limitado, câmeras de segurança, condomínios fechados, estacionamentos restritos, carros blindados, etc. Zonas de exclusão social, exemplos
de como a cultura do medo e o mito da segurança permeiam nosso cotidiano.

            O sociólogo polonês Zygmunt Bauman cunhou a palavra ‘mixofobia’ para descrever aquele que seria, em sua opinião, o medo típico das grandes cidades contemporâneas: a fobia de se misturar com outras pessoas. O fenômeno acontece na sociedade atual, onde muitos indivíduos evitam interagir com desconhecidos, seja no meio da rua, na porta de casa ou até mesmo no próprio ambiente de trabalho. O abandono de logradouros usados como ninhos de convivência social, como nossas calçadas e praças, aumenta as divisões entre as pessoas fortalecendo o mito do medo e  a insegurança da população que por eles transita.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A igreja e a diversidade

               Documento preliminar  de uma assembleia de bispos convocada pelo Papa Francisco promete converter-se no catalisador de um debate global sobre a aceitação de pessoas divorciadas ou vivendo em coabitação não matrimonial, homossexuais e famílias não-tradicionais. Precedido por declarações pontificais nos últimos dezoito meses, os bispos recomendaram maior discernimento, compreensão e compaixão com famílias e pessoas marginalizadas por atitudes ou práticas que as condenavam a uma existência no pecado ou sob sanções eclesiásticas.

            Ensinamentos da Igreja sobre o sacramento do matrimônio reafirmados e preservados, o documento orienta religiosos a reconhecer aspectos positivos da união civil e coabitação, sem a bênção de um casamento religioso. Afirma também que homossexuais têm dádivas e qualidades para oferecer à comunidade cristã e que alguns casais homoafetivos se apoiam mutualmente à ponto de sacrifício. O tema central é o respeito à integridade da pessoa humana independente de sua orientação sexual.

            Sacramento da comunhão para católicos divorciados ou casados sem obter anulação do primeiro casamento pela Igreja, permanece um dos pontos mais contenciosos  do debate.  Existe porém o compromisso de tratar divorciados, casados ou solteiros, com respeito e o devido cuidado de não usar linguagem ou promover comportamentos que os façam sentir-se descriminados. Muitas paróquias já promovem encontros de casais com Cristo, mesmo para casais sem casamento religioso , a exemplo da Igreja de São Luiz na Avenida Paulista em São Paulo. Mudanças sutis, mas promissoras.

            Posições adotadas pelos bispos, refletem novos rumos para a Igreja no papado do Papa Francisco.  Em alguns países, paróquias estão abrindo suas portas à casais homoafetivos, baseadas em  uma política de “não pergunte, não diga”. Párocos, no entretanto, ainda são removidos de corais, de magistério em escolas paroquiais e crianças têm recusadas as suas matrículas, por serem considerados problemáticos, as vezes perigosos.

            Começamos a ter um efeito salutar e a Igreja tornando-se mais aberta à diversidade, embora considerada devagar demais e superficial por alguns grupos de pressão. Independente de reservas e críticas, a mudança é real. A tendência é transformar a Igreja em um grande tenda abrigando a todos, sem condicionalidades ou exclusão. Cinquenta anos atrás, o papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II com objetivo de modernizar a Igreja e atrair cristãos afastados da religião. A promessa dos ensinamentos de Papa Francisco é um bom augúrio para novas mudanças, tornando a Igreja mais inclusiva, menos dogmática e eventualmente mais receptiva para discutir à função da mulher no clero, entre outros tópicas.


Palmarí H. de Lucena, União Brasileira de Escritores

domingo, 12 de outubro de 2014

Campanhas negativas

              Crescente desconforto com campanhas eleitorais negativas contradiz a proliferação de marketing e táticas fomentando o antagonismo eleitoral, ofuscando posições políticas, muitas vezes expondo aspectos da vida pessoal de oponentes. Comumente tais artifícios são usados por concorrentes em desvantagem eleitoral ou por aqueles enfrentando incumbentes. Paradoxalmente, a polarização do nosso segundo turno possibilitara maior acirramento da disputa eleitoral, principalmente na desconstrução das posições da oposição. 

            Desejo de mudanças expressado pelos eleitores será possivelmente relegado ao segundo plano ou amnesia eleitoral, dramatizando assim a dificuldade do governo em apoderar-se de uma narrativa reformista. O enfoque do incumbente em medos e riscos, será direcionada ao eleitorado e regiões mais dependentes da tutela do governo federal, evidentemente menos preocupado com reformas políticas, questões tributarias ou a macroeconomia. A oposição argumentará, em contraste, que a manutenção do status quo ameaça gerar uma desaceleração mais profunda do crescimento econômico e persistência inflacionária, com consequente depreciação do patrimônio do povo brasileiro. Temas pouco discutidos ou compreendidos pelo eleitor que depende de mensagens simples ou slogans criados por marqueteiros.
           
            Existe um sentimento público que as campanhas são mais negativas e menos éticas. Experts sugerem que o crescente cinismo e abstenção eleitoral é uma consequência imediata do negativismo inerente aos certames. Candidatos que sucederam em descontruir seus adversários e ofuscar suas próprias debilidades, continuam uma crescente tendência.

            Recente pesquisa nos Estados Unidos revela que 87% do eleitorado está preocupado com o nível de ataques pessoais nas campanhas eleitorais. A maioria considera que políticos mentem ou distorcem a verdade, como também que propagada negativa é relevante e apropriada quando expõe inconsistências entre discurso e ações. Denúncias sobre a aceitação de doações de fontes questionáveis, conflitos de interesses e uso de álcool e drogas são aceitáveis.

            Portanto ao eleitor brasileiro, cabe decifrar as entrelinhas nos pronunciamentos e posições no horário eleitoral ou em breves aparições de candidatos. O eleitor mais informando valoriza a escolha e o impacto do seu voto. Perdidos na cacofonia de mensagens negativas, grande parte do eleitorado brasileiro vive na incerteza e dúvida sobre a eventual validade do seu voto.


Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores