NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 26 de outubro de 2014

Em louvor à solidariedade

             Concluído o exame físico e a conversa sobre os testes de laboratório, o assunto mudava para nosso interesse comum: o problema da fome e da miséria. Ritual de médico e paciente, transformando-se em um momento de solidariedade humana. Trabalhávamos na África coordenando um programa de ajuda humanitária da Igreja Católica. Roger, nosso médico, fechava seu consultório na 5a Avenida de New York City, passando seu mês de férias voluntariando como infectologista na Tanzânia e países limítrofes: tratava pacientes aidéticos, parentes e amigos arrecadavam doações. Próxima consulta, mesma época no ano seguinte.

            Sentimos febre e dor de cabeça durante uma parada em Johanesburgo.  Quando chegamos em Moçambique, a seriedade da doença tornou-se evidente, fomos trasladados para um hospital em Zimbabué devido à carência médica. Diagnóstico preliminar: malária cerebral com possíveis complicações neurológicas. Acordamos precariamente depois de sono que parecia haver durado muitos dias. Mão cheirando a detergente hospitalar enxugando o suor do meu rosto, sensação reconfortante. Próximo à cama, um religioso sussurrava uma prece, extrema unção. Pessoas de bata branca em voz baixa, a única palavra que ouvimos: febre tifoide. Sobrevivemos.

            Magro, debilitado, passadas inseguras. Encontramos nosso salvador pela primeira vez. Jovem médico australiano voluntário no hospital questionara o diagnóstico inicial com veemência, mesmo sem condições de realizar o teste de Reação de Widal. Elegeram a nova opção de tratamento baseada na sua experiência. Após a alta, descobrimos que estávamos entre os quase 33 milhões de casos de febre tifoide e fora dos 216.000 óbitos anuais em áreas endêmicas.

            A mídia norte-americana confirmou que Craig Spencer, médico voluntário da ONG Médicos Sem Fronteiras, atestou positivo para Ebola. Internado em um hospital de emergência da cidade de New York, acionara o serviço médico após sentir sintomas da doença. Chegara da África Ocidental recentemente, onde trabalhava numa região endêmica de Guiné.

            O espectro de uma calamidade de grandes proporções paira sobre todos nós, todos os povos e nações. Precisamos de mais Rogers e Craigs, médicos sem fronteiras que acreditam na humanidade, em situações onde a mitigação ou mesmo a cura de uma enfermidade aparenta ser impossível. Surgem voluntariamente sem bandeiras, ideologias ou promessas de compensação. Verdadeiros heróis movidos pelo altruísmo e o comprometimento da vocação.

Palmari H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


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