NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Organiza-te ou desaparece!

            Passávamos diariamente por um escritório de contabilidade, esquina das Rua Desembargador José Peregrino com a Rua das Palmeiras. Homens debruçados sobre livros de contabilidade, a superfície dos birôs cobertas de arquivos e papéis. Fumando incessantemente, um homem exibia um enorme topete, tão meticuloso como a caligrafia impecável dos seus registros contáveis. Portas abertas expondo as entranhas do negócio. Linha de montagem, uma colmeia humana. “Organiza-te ou desaparece", placa na parede principal reforçando a probidade e a importância dos seus serviços.

            Acontecimento na Rua das Palmeiras. Motorista de uma marinete perdera o controle do veículo, restava sua metade encravada na porta principal do escritório de contabilidade. Ironicamente, uma das poucas coisas que sobreviveu ao sinistro foi a placa que nos inspirara nas passagens da adolescência. O escritório desapareceu.        

            Barulho staccato da máquina datilográfica, nuvem de fumaça formando uma espécie de aura ao redor da cabeça de uma mulher madura, cabelo exageradamente ruivo, marcas de erosão tabagista na pele do rosto. Mensagens em duas placas, possivelmente para aqueles que tentassem constranger ou questionar sua rotina e hábitos de trabalho: “Eu fumo, eu voto”; “Não permita que sua falta de organização se transforme em uma emergência para outros“. Auditoria posterior revelou problemas sérios no seu controle e organização de medicamentos destinados a emergências na África. Evitaram demití-la, sofria de câncer.

            Seguimos a mensagem sobre planejamento e emergências por toda a vida. Sua relevância para os problemas do Brasil é evidenciada nas investigações da Operação Lava Jato e do TCU. Ocupados criando emergências burocráticas para burlar processos normais de licitação, esquecemos de cuidar dos nossos desastres naturais. Agora nos resta um desastre nacional provocado por uma tríade de incompetência, corrupção e impunidade. Chegou a hora de encarar: organiza-te ou desaparece!  


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A santa que calculava

Religiosas das Missionárias da Caridade nos esperavam. Vestidas tipicamente em sáris e véus brancos, as bordas azúis realçando a hegemonia puritana dos hábitos. Buscando ajuda alimentar e medicamentos para os favelados do Vale de Mathare de Nairóbi, meio milhão de pessoas vivendo em pobreza abjeta. Paisagem poluída por barracos de papelão, zinco e madeira, esgoto a céu aberto. População vulnerável a todas as formas de degradação humana, os pobres de Madre Teresa. 

Conhecemos Madre Teresa em 1982, no lançamento do filme “Ghandi”, em Nairóbi, Quênia. Ciente do nosso apoio ao trabalho das Missionárias da Caridade, sugeriu uma reunião na comunidade para discutir as necessidades do Vale de Mathare.

Sentados ao redor de uma pequena mesa, tomávamos chá matinal enquanto Madre Teresa realizava seus pedidos. Quantidades substanciais de alimentos, cálculos que a religiosa fizera usando uma calculadora. Explicamos as dificuldades de conseguir tamanha ajuda e organizar a distribuição em tão pouco tempo. Doadores preferiam apoiar projetos com viés desenvolvimentista, para evitar dependência. Comentou serenamente enquanto servia biscoitos para os meus dois filhos que me acompanhavam: Eles têm tantas coisas, meus pobres não têm nada... não temos tempo para elaborar projetos. Prestamos contas ao Senhor.

            Adentramos em uma pequena igreja na comunidade. Ouvíamos o murmúrio de sua oração, enquanto pensávamos na enorme responsabilidade que nos incumbira. Silêncio quebrado pelo ruído de uma câmera cinematográfica e risos das crianças. Terminadas as orações, partimos para a nossa missão. Conseguimos as doações de alimentos em pouco tempo. O espírito de Madre Teresa havia superado todas as restrições e dúvidas. Conversamos mais uma vez sobre a distribuição dos alimentos no Vale de Mathare. Despediu-se sem chegar a um plano específico. Olhando na nossa direção, sorriu como se dizendo: é para o bem dos pobres, tudo vai dar certo...   


Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ética profissional e políticos

 Impondo regras onerosas para a conduta de membros da burocracia do governo, democracias optam por aceitar um nível de tolerância menos robusto e mais maleável na conduta de políticos eleitos pelo voto popular. Permitindo, portanto, que tais agentes políticos se auto-regulamentem. Lamentavelmente, políticos brasileiros continuam demostrando ser incapazes de sustentar minimamente, ou mesmo aparentemente, o ônus da confiança popular. Ética política passando a ser regulamentada por uma ótica de desconfiança pública, alimentada pelo medo e a metastização da corrupção política por todos os rincões da nossa anatomia democrática.  Paradoxalmente, a conduta politica pode ser tão corruptora como essencial, se ética, para nossa democracia.

Múltiplas profissões aplicam normas de conduta geradas por suas associações a indivíduos exercendo relevantes ocupações. Além de estandardizar a prestação de serviços profissionais, essas normas também contextualizam o comportamento ético de seus associados. Médicos, engenheiros, arquitetos, pilotos e outras profissões são passiveis a sérias sanções quando extrapolam limites de suas reponsabilides profissionais ou comportamento ético. Política é diferente porque a profissão não é associada a algum tipo de treinamento ou filiação a uma associação profissional. Práxis política em democracias, entretanto, é essencialmente participativa e coletiva.

As manobras e o debate ad-nauseum sobre os procedimentos a ser aplicados ao processo da cassação do Presidente do Congresso Nacional ilustrando as dificuldades de chegar a uma decisão coletiva sobre a conduta política apropriada. A qualidade ética da política em uma democracia depende grandemente da ética da relação entre o povo e seus reprentantes políticos. Qualidade ausente no comportamento dos envolvidos em atividades corruptas, deslizes éticos ou uso indevido da franquia otorgada pelo voto popular, como demonstrado nos anais da Operação Lava Jato.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores