NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Réquiem para um amigo

            Grinaldas multicoloridas quebrando a tristeza monótona do velório,  soluços e choros abafados, comentários sussurrados. Restos mortais preparados para a despedida final, semblante congelado pela máscara da morte, mãos cruzadas sobre o peito. Próximo à  parte superior do ataúde, pessoas imersas em pensamentos ou chorando, parecendo às vezes estar conversando com o corpo inerte, último momento de intimidade. Tristeza espalhando-se pela periferia da sala, familiares, amigos de infância, colegas de profissão, pessoas humildes. Todos tinham algo a dizer, como se revivendo a tristeza de Marco Antônio no funeral de César. “[...] Mas eu tenho que falar daquilo que eu sei. Vocês todos já o amaram e tinham razões para amá-lo. Qual a razão que os impede agora de homenageá-lo na morte? [...]".  

            Lembranças dos cortejos fúnebres de alhures. Procissões de parentes e amigos caminhando em silêncio pelos becos do campo-santo, reconhecendo  lajes, túmulos e mausoléus de pessoas queridas ou famosas. Cores do luto competindo com a austeridade cinzenta do granito ou a discrição fria do mármore. Religiosos de vozes solenes e palavras confortantes enaltecendo a paz universal, a rota final do ente querido. Reunidos ao redor da cova cheirando a terra fresca. Escrevíamos os anais da história e do nosso patrimônio cultural, hoje abandonados pelo descaso do poder público, criminalização de espaços funerários e a privatização do último ritual da pessoa humana.

            Hoje tudo mudou, enterramos nossos mortos e ao mesmo tempo decretamos a morte da história. Contemplamos o amplo espaço fúnebre, pequenos retângulos escuros marcando no chão o lugar do descanso de pessoas e famílias. Jazigos comprados à preços módicos, investimento seguro, padronização da nova ordem funerária.

            Olhamos pela última vez para o corpo inerte do nosso amigo. Velório terminado, ataúde transportado imediatamente para um crematório. Lembramos de muitas coisas, alegres e tristes, momentos da nossa convivência. Memórias de um homem corajoso, determinado em sobreviver, vivendo bem e totalmente, mesmo sabendo das limitações físicas que o levariam a caminhos árduos e perigosos pelo resto da vida. Morreu no tempo de Deus. Todos vão para o mesmo lugar; viemos todos do pó, e ao pó voltaremos.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Melhor dos tempos, pior dos tempos

               Cercados por uma sinfonia de sons, cantos de aves e latidos de leões marinhos, estalidos de pinheiros curvando-se à majestade dos ventos uivantes, desfrutávamos complacentemente dos gritos alegres de três crianças regamboleando entre as pedras à procura de conchas e caranguejos. Bem próximo de nós, bem próximo, o lânguido aroma de perfume de mulher. Maresia, essências e flores de lugares distantes. Beleza simples em tons beijes, verdes e azuis perdida na imensidão do Oceano Pacífico.

            Nossos olhos seguindo linhas paralelas de vapor cruzando o céu azul em direção ao infinito azul do céu. Miragens desaparecendo na mistura de raios solares e nuvens esparsas. Criança mostrando uma concha púrpura com um sorriso triunfante, talvez a única no oceano da sua imaginação. Todos tínhamos nossas próprias conchas, as vezes vivíamos dentro delas, sem nunca perceber suas cores.

            "Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da luz, a estação das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o paraíso, íamos todos direto no sentido contrário”. Magistral prosa de Charles Dickens, nos remetendo ao labirinto de contradições e conflitos da época em que vivêramos na Califórnia nos tempos da guerra do Vietnã. Embates e protestos dividindo o país em dois pedaços amorfos, duas grandes cidades sem fronteiras ou limites. A república sobreviveu; imperfeita, mas sobreviveu. 

            Nossas divagações esvaneceram ao chegarmos aos campos agrícolas. Bombas extraindo petróleo das profundezas da terra árida, quebrando a monotonia do horizonte. Estavam atravessando um longo período de estiagem, quatro anos haviam passado. Rios e mananciais prejudicados pela intempérie da natureza, sobrecarregados pelas demandas do sistema de irrigação alimentando um dos setores agrícolas mais produtivos do mundo. Comunidades engajadas em campanhas de conservar água, proteção do meio ambiente e limitações ao acesso privilegiado de produtores agrícolas às reservas hídricas. O povo e a agroindústria, duas cidades à procura de uma luz no final da estação das trevas.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores