NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Melhor dos tempos, pior dos tempos

               Cercados por uma sinfonia de sons, cantos de aves e latidos de leões marinhos, estalidos de pinheiros curvando-se à majestade dos ventos uivantes, desfrutávamos complacentemente dos gritos alegres de três crianças regamboleando entre as pedras à procura de conchas e caranguejos. Bem próximo de nós, bem próximo, o lânguido aroma de perfume de mulher. Maresia, essências e flores de lugares distantes. Beleza simples em tons beijes, verdes e azuis perdida na imensidão do Oceano Pacífico.

            Nossos olhos seguindo linhas paralelas de vapor cruzando o céu azul em direção ao infinito azul do céu. Miragens desaparecendo na mistura de raios solares e nuvens esparsas. Criança mostrando uma concha púrpura com um sorriso triunfante, talvez a única no oceano da sua imaginação. Todos tínhamos nossas próprias conchas, as vezes vivíamos dentro delas, sem nunca perceber suas cores.

            "Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da luz, a estação das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o paraíso, íamos todos direto no sentido contrário”. Magistral prosa de Charles Dickens, nos remetendo ao labirinto de contradições e conflitos da época em que vivêramos na Califórnia nos tempos da guerra do Vietnã. Embates e protestos dividindo o país em dois pedaços amorfos, duas grandes cidades sem fronteiras ou limites. A república sobreviveu; imperfeita, mas sobreviveu. 

            Nossas divagações esvaneceram ao chegarmos aos campos agrícolas. Bombas extraindo petróleo das profundezas da terra árida, quebrando a monotonia do horizonte. Estavam atravessando um longo período de estiagem, quatro anos haviam passado. Rios e mananciais prejudicados pela intempérie da natureza, sobrecarregados pelas demandas do sistema de irrigação alimentando um dos setores agrícolas mais produtivos do mundo. Comunidades engajadas em campanhas de conservar água, proteção do meio ambiente e limitações ao acesso privilegiado de produtores agrícolas às reservas hídricas. O povo e a agroindústria, duas cidades à procura de uma luz no final da estação das trevas.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores


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