NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 26 de maio de 2015

O voo dos colibris

            Contemplávamos nosso jardim enquanto percorríamos a longa estrada de verões passados. Ar úmido e seco com cheiro de maresia, proporcionando momentos de tranquilidade exaustiva. Sinos do jardim emitindo sons tímidos, quase imperceptíveis. Gotas d’água escorrendo de flores recém regadas. Converteríamos todas as vicissitudes acumuladas no trabalho ou na escola em busca de uma trégua humanitária no final da semana. Voltaríamos em dois dias aos obstáculos da  gincana infernal assolando a humanidade. Tráfego desorganizado e conflitivo, ruas pobremente pavimentadas, aparelhos de refrigeração ineficientes e mal estar físico generalizado. Passagens pela Disneylândia do cotidiano enfeitado pelo poder público e as grandes marcas. Combustão atmosférica e a banalidade do  veraneio criando pessoas impacientes demais para pecar com o mínimo de competência. Talvez cansados demais para amar alguém além da brisa do momento, romances de verão.

            Observamos de soslaio um pequeno pássaro voando sobre uma touceira de rosas vermelhas, no lado oposto do jardim. Plantadas em uma das últimas visitas da nossa mãe, lembrança de tempos felizes. Movendo-se intempestivamente à nossa aproximação. Pairando sobre o nosso jardim, um pequeno colibri de cor verde metálico. Cabeça, asas e cauda formando uma cruz justaposta contra a imensidão do céu azul. Alma dos guerreiros astecas retornando à terra ou o ente predestinado a salvar a humanidade da fome dos índios Hopi do Arizona? Colibris e mistérios voavam juntos, nossa fascinação por eles começou naquele dia ensolarado. Parte do nosso cotidiano, bem longe dos enigmas escondidas nas linhas e geóglifos antigos localizados no deserto de Nazca, no sul do Peru. 

            Colibri azul voando em direção ao bebedouro de néctar do nosso jardim. Pairando timidamente diante do receptáculo, como se verificando seu conteúdo. Repentinamente começando movimentos aéreos intricados, coreografia inusitada cheia de mergulhos ou ascensões. Ora defendendo seu território, ora impressionando uma fêmea. Pás-de-deux mágico no romance ou bailado triunfalista após vitória nos embates territoriais. E assim contemplávamos os voos dos colibris. Éden sobre uma torre de concreto, nosso jardim um refugio para sobreviventes da urbanização predatória e a escassez de fontes de néctar.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Bipolaridade racial

           Manifestações contra a violência policial  e o racismo eclodiram em mais de cem cidades norte-americanas,  eventos provocados pela morte de um jovem negro no Estado de Missouri em Novembro de 2014.  Havíamos voltado aos tempos dos protestos massivos em defesa dos direitos civis da população excluída. Seguiria uma explosão midiática com cobertura extensiva, muitas vezes tendenciosa, sobre as relações raciais nos Estados Unidos. Narrativas diferentes sobre o mesmo tema emolduradas por viés cultural, a intensidade da bipolaridade racial ou a elasticidade democrática de diferentes países. A mídia brasileira não é uma exceção.

            Nossa sociedade, e a mídia em particular, persiste no mito de que protestos  ou demandas e queixas de minorias étnicas contra o estabelecimento policial nos Estados Unidos são equacionados em conflitos entre brancos e negros. Argumentamos que tais enfrentamentos não seriam possível no Brasil, porque nossa sociedade não é organizada de uma maneira estritamente racial. A sabedoria convencional brasileira exclui raça como um catalizador de conflitos, violência ou algum tipo de distúrbio da ordem pública ou da vida política. A predominância branca ou relativamente clara da nossa elite, contrastando visivelmente com o fato de que a maioria do pobres e possíveis vítimas de arbitrariedade policial e exclusão social são negros ou de aparência mais escura.

            Nos últimos cinco anos, as forças policiais brasileiras mataram 9.691 pessoas, um número marcadamente superior ao dos Estados Unidos, onde 7.584 pessoas foram mortas por seus homônimos em duas décadas. Considerando que as pessoas identificadas como negras representam 51%  e 12% do povo do Brasil e dos Estados Unidos, respectivamente, é lógico concluir que a vitimização, injustiça e baixa representatividade da população negra brasileira são mais profundas , duradouros e um impedimento ao desenvolvimento do país. Quando pregamos a imagem de ser um país de cegos de cores e que descriminamos exclusivamente baseados em classe ou vestimentas de superioridade social, estamos evadindo a promessa democrática de criarmos uma sociedade justa, inclusiva e com igual oportunidades para todos.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores