NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Tsunami democrático


            Armados de cartazes e bandeiras, gritando slogans ou cantando temas  patrióticos, cidadãos irados tomando as ruas de cidades da América Latina. Marchando em protesto pacífico, demandando mudanças, externando denúncias contra políticos e empresários corruptos.  Oxigênio das liberdades democráticas enchendo os pulmões do povo reivindicando seus direitos, muitos pela primeira vez na vida.  Deficiências na previdência social e do sistema de saúde, medidas de austeridade, desemprego crescente, impunidade de políticos e poderosos, denominador comum da ira popular.

            Era de nacionalismo bolivariano e líderes populistas carismáticos avançando impiedosamente em direção ao seu nadir, como demandado na maioria dos protestos. Desafios à solvência da democracia, moldados por expectativas não realizadas, a queda de qualidade de vida e a descrença popular na competência e comprometimento dos governantes.  Fogo no capim seco da corrupção alastrando-se pelas ruas da América Central, populações historicamente oprimidas por regimes militares ou autocráticos,  agora tomando as ruas para protestar contra os escândalos de corrupção.

            Pessoas próximas a vários presidentes centro-americanos acusadas de desviar verbas destinadas à saúde e de sonegação de impostos. Ex-mandatários e membros dos seus governos julgados por corrupção pelos seus sucessores. Investigação da administração do ex-presidente Ricardo Martinelli do Panamá, atualmente foragido do país, revelando a participação dos seus auxiliares em práticas corruptas em licitações e contratações de  empreiteiras. Protestos contra propinas a funcionários da Alfândega por um assessor da vice-presidente da Guatemala resultando na sua renúncia e fuga do país.

            Céticos questionam a viabilidade da indignação popular causar mudanças significativas ou o desmembramento de esquemas multipartidários. Enquanto o povo nas ruas protesta contra a degeneração do Estado de Direito, o poder público promulga “reformas políticas” ofuscando ou descarrilhando investigações de escândalos de corrupção, instrumentalizando órgãos de supervisão de gastos e protegendo legisladores suspeitos de conflito de interesses. Resta o poder cidadão: a única arma disponível para alcançar as mudanças profundas demandadas pelo povo e ignoradas pela classe política.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Fogueira de promessas

            Expostos diariamente a campanhas de propaganda oficial, cidadãos são motivados a acreditar ou pelo menos conscientizar-se sobre ações governamentais ou possibilidades de melhorias e desenvolvimento. Releases anunciando a assinatura de cartas de intenções, prospectos de parcerias com o setor privado, anúncios de verbas federais,  são muitas vezes publicadas sem o devido escrutínio ou questionamento. Benefícios e promessas de novos investimentos são descritos em termos bombásticos, enquanto os compromissos de contrapartida local e relevantes condicionalidades das fontes de financiamento são minimizadas por uma névoa de omissões e pelo narcisismo burocrático do poder público.

            Montadoras de automóveis, fábricas de aviões e maquinaria agrícola, novas conexões aéreas ou bases de manutenção de helicópteros e outros investimentos prometidos por empresários nacionais e estrangeiros, consultores e intermediários políticos são anunciados com excessiva alacridade, sem primeiro realizar uma diligência razoável das capacidades e intenções dos parceiros prospectivos. Em palavras shakespearianas, muito barulho por nada!

            Ministros e seus aliados no Congresso Nacional ziguezagueando o país, prometendo ou anunciando a aprovação ou liberação de verbas e a concomitante criação de milhares de empregos; políticos regressando de Brasília com notícias alvissareiras, devidamente autenticadas por fotografias com altas autoridades e comunicados de imprensa. Fertilizada pelos gastos extraordinários da Copa do Mundo, prospectos de royalties do petróleo pré-sal e a abundância de subsídios ou recursos estatais, a paisagem política transformando-se em uma arena de gladiadores pela permanecia no poder.

            Verbas do Programa de Aceleração do Crescimento, por exemplo, não foram suficientes para assegurar o desempenho e resultados dos investimentos na revitalização e desenvolvimento socioeconômico do Centro Histórico. Dificuldade em elaborar projetos executivos, ausência de estudos ambientais e pesquisas arqueológicas, titularidade de propriedades expropriadas ou resistência de comunidades afetadas, contribuindo para o insucesso do programa dentro dos parâmetros e cronogramas acordados com o Governo Federal. Continuando assim a lumpenização e a degradação do nosso patrimônio histórico, mesmo com disponibilidade de verbas federais. Mais uma vez, só promessas...


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 2 de junho de 2015

Suspeitos habituais

            Sucesso nas matinés do cinema do bairro, o filme “O Garoto” contava a história e aventuras tragicômicas de um vagabundo desajeitado e seu protegido, um menino de rua, abandonado pela mãe quando ainda recém nascido. Sobrevivendo à constantes perseguições das autoridades, encontrando refúgio nos labirintos de becos escuros, lugares esquálidos e esconderijos de prófugos e indesejáveis. Correndo de policiais com expressões faciais severas, seus cassetetes balançando ameaçadoramente,  atormentando o miserável cotidiano da inusitada dupla. Eventualmente se evadiam ou ridicularizavam seus algozes: risos, gritos e aplausos de adolescentes.

            Personagens criadas por Charles Chaplin, dramatizando situações que refletiam a origem humilde e as vicissitudes do seu criador. Desconfiança e antipatia por policiais ou autoridades, temas transversais no seu trabalho artístico, excluindo qualquer possibilidade de interações positivas ou mutualmente beneficiais, entre as autoridades e as vitimas de exclusão social na Inglaterra Vitoriana. Atitudes e estereótipos sobrevivendo mais de um século de mudanças e progresso social.

            Adolescentes em comunidades policiadas ostensivamente com requintes de ocupação castrense, continuam correndo à procura de lugares para driblar ou se esconder de um policial que transforma a possibilidade de uma mera suspeita em uma atividade criminosa ou justificação para uma conduta arbitrária. A fuga dos adolescentes provoca reações com armas de fogo, muitas vezes com desenlaces trágicos e efeitos nocivos  à convivência pacífica entre vítimas de exclusão social e forças policiais responsáveis pela sua proteção.  

            Ações letais justificadas pela suposição de que os suspeitos haviam cometido ou estavam no processo de cometer uma ação criminosa. A frequência e o número de mortes questionáveis em tais encontros, tanto no exterior como no Brasil, tem motivado demandas de organizações de direitos humanos e a própria Organização das Nações Unidas. Recomendam enfatizar o seguimento estrito da regra da evidência e questionam os chamados “atos de resistência” usados para isentar policiais suspeitos de aplicar força desproporcional ou apreensões arbitrárias. 

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores