NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Turismo pro mundo ver


            Perguntamos ao guarda-parques de uma praça de Montevidéu, sobre os desafios de manter o logradouro livre de pichações e vandalismo. Respondeu sem hesitar: turistas subindo em monumentos e invadindo jardins para tirar fotos. Apresentação sobre a cidade de Machu Picchu interrompida constantemente pelo comportamento obnóxio de uma família. Autorretratos, fazer zoeira ou marcar presença digital, pareciam ser a motivação principal do grupo. Ambos casos, turistas brasileiros. Gestores de turismo e autoridades locais reclamando de uma improcedente maré de narcisismo e irresponsabilidade, motivada pela busca constante de autoafirmação e a transformação de locais turísticos e sítios históricos em acessórios de vídeos pessoais e fotografias.

            A Organização Mundial de Turismo reporta que mais de um bilhão de visitas turísticas ocorreram no ano passado, um recorde desde que a organização começou a monitorar o movimento mundial de turistas. Problemas afetando negativamente o desempenho das economias dos Estados Unidos, da Zona do Euro e de alguns dos países do BRICS entretanto não foram suficientes para frear o crescimento vertiginoso do setor turístico global. Relaxamento de vistos, tarifas promocionais e pagamentos facilitados, colocaram os chineses e os brasileiros no topo dos gastos turísticos em 2014 e parte de 2015.

            O declínio da economia brasileira e a concomitante valorização do dólar continuam diminuindo o volume de gastos no exterior, sem afetar o viés de compra de roupas,  acessórios e cosméticos de marca que representa quase a metade do consumo dos nossos turistas. Talvez uma consequência não intencionada da situação atual seja fomentar o turismo de marca e sacola, uma atividade econômica vista como lucrativa e plausível, independente do nível social ou informalidade do empresário. Ênfase em compras e consumismo contribui para falta de interesse, muita vezes falta de respeito, pela cultura e história dos lugares ou  países visitados. Autorretratos diante de monumentos como a Torre Eiffel, por exemplo, registram a passagem do visitante pelo local para disseminação em redes sociais, sem nenhuma atenção à história e ao valor cultural do monumento. Conhecimento não adquirido na viagem, tratado muitas vezes como um oneroso excesso de informação, sem valor comercial nem status.


Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 7 de julho de 2015

Legado de um pai

              Lendo cartas que nunca escrevemos para um filho ou tentando lembrar-se das poucas recebidas dele, quase todas nunca entendidas completamente. Memórias distantes; ora bem afiadas pelo desejo de encontrar algo positivo nas junções de uma relação tumultuada, ora armazenadas no relicário das dores escondido na escuridão mais profunda de um cérebro. Viajamos por caminhos perigosos que havíamos percorrido juntos ou bem distantes. Aprendemos a navegar evitando  as agruras e curvas da jornada, com a destreza de um ginete e a serenidade de pessoas que conhecem suas opções e riscos do percurso. A tabula rasa do perdão havia nos transformado, afeto silenciando as gralhas da cronologia do passado confuso, guiando-nos ao kairós das nossas vidas.

            Pensamos sempre nos nossos pais, quando refletimos sobre os filhos. Procuramos pontos de luz, frases, truísmos e metáforas que ouvíamos ou que haviam norteado atitudes e conceitos que transferiríamos para a próxima geração. Eventualmente,  alguns se perderiam na caminhada, outros seriam guardados como a verdade pura e a rota do destino inexorável. Substâncias no tubo de ensaio da vida, uma mistura perdendo suas características transformando-se em poções bem diferentes, mutações aquém ou além dos resultado esperados pelo alquimista. Estes seriam nossos filhos.

            Três décadas haviam passado. Ouvíamos atentamente uma pergunta sobre nossa apresentação quando notamos de soslaio a presença de um homem de aparência sóbria. Tentando entregar um pequeno bilhete, sua atitude sugeria tratar-se de algo urgente. Cinco palavras: seu pai faleceu no Brasil. Palestra concluída. Nos tornaríamos uma adulto naquele momento, havíamos perdido nosso amigo de brincadeiras. E nossos filhos? Será que eles lembrarão das nossas preleções, exemplos, fracassos ou sucessos?


            Comemoramos em silêncio os tempos e feitos do Tenente Lucena, nosso pai. Lembranças do aroma de comida com a beleza da ingenuidade musical. Meninos de rua, deficientes, folcloristas e artesãos habitavam nosso terraço como se fosse um terminal de integração. Mãos enormes e gorduchas voando pelos ares com a graça de colibris, olhos mesmerizados pela magia do momento.. Casa do maestro, casa de todos. Aprendemos a servir ao próximo, presentes ou distantes, o legado.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores