NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Breve história de dois pássaros

     Cantos de pássaros exóticos, filhotes de cães ladrando, cheiro penetrante de alpiste e rações, cotidiano da pequena loja de animais de estimação. Alçapão plástico com um bebedouro de néctar improvisado, dois minúsculos filhotes de beija-flor encolhidos no centro do espaço. Resgatado pela providencial passagem de um adulto interessado na proteção de animais, sobrevivendo das mãos de crianças após seu ninho haver sido derrubado pela ventania. Observamos um movimento quase imperceptível, o maior subindo no corpo inerte do menor para alcançar a fonte de alimentação. Habituées e compradores de néctar para os nossos beija-flores, fomos subitamente incumbidos da recuperação e soltura dos pássaros, no nosso jardim. Nossa própria liberdade engrandecida pela liberdade deles. Aceitamos o desafio.

     Alçapão aberto na sombra da pitangueira, dois passarinhos expostos ao céu da liberdade e à brisa do mar. Imaginando pequenos pares de olhos observando a cena à distância. Subitamente um bando de beija-flores fazendo manobras aéreas, piando como se fossem arautos. Festejando sua própria liberdade, o céu se transformando em uma festa. Encorajado por um dos visitantes, primeiro mergulho na atmosfera colorida do jardim. Voando em direção ao mar, desaparecendo rapidamente. Entardecia... Decidimos deixar o outro a sós com a natureza.

     Alimentamos o que ficou para trás, o dia seguinte mal começara a acordar. Fortalecido tentou seu primeiro voo, alcançando a trepadeira de alamandas amarelas oposta à pitangueira. Observando seus movimentos, sentindo a angústia da despedida, a incerteza da volta. Empoleirado parecia hesitante, talvez esperando alguém. Voando paralelamente outro beija-flor, comportando-se como se estivesse ensaiando um balé ou um movimento coordenado. Partiram, voltando juntos no dia seguinte. Obrigado e até a próxima visita. Bons filhos sempre retornam. Pássaros também...

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Gastando e tributando

            Acontecimento-ícone da História dos Estado Unidos, a Festa do Chá de Boston é considerada como um dos catalizadores do movimento independentista e subsequentes manifestações contra aumento de impostos até os dias atuais. Tributação excessiva para financiar déficits governamentais, seja na economia, na expansão da máquina burocrática ou no uso de coerção legal para  modificar normas ou instituições sociais. Funcionando como para-raios para demandas contra programas econômicos do governo e resistência ferrenha a qualquer investimento no bem-estar social da população excluída.   

            Enrustido em argumentos de fácil raciocínio, o debate brasileiro reduziu-se ao binômio: contribuinte versus não contribuintes. Justificando queixas e reclamações pela racionalidade do sentimento exclusivista de que trabalhamos para sustentar aqueles que não trabalham. Paradoxalmente poucos questionam o tamanho do Estado ou a influência difusa dos subsídios, a viabilidade de empresas e bancos privados, a sustentabilidade de paraestatais ou a perpetuação de partidos políticos de pouca representatividade.  O outro lado da moeda, beneficiários das bondades e programas sociais do governo formam uma base política fidelizada, hostil a qualquer forma de redução da carga tributária que ameaçasse seus benefícios. Status quo garantido pelo voto obrigatório e  partidos políticos dependentes de gastos e investimentos financiados pelos contribuintes. 


            Mágicos do poder executivo e do Congresso ofuscam a realidade do Brasil com vidros incandescentes e fumaça azul, o empobrecimento da população continua à revelia dos subsídios que os transformaram em consumidores e partes interessadas no crescimento do país. Cinismo sobre a falta de representatividade do conluio que orquestrou a Agenda Brasil e a impotência de um poder executivo imerso em auto-delusão,  fornecendo ingredientes essenciais para o preparo da poção da bruxa dos questionamentos, inércia e resistência às mudanças genuínas e sustentáveis da estrutura e financiamento do Estado Brasileiro pelos contribuintes do Erário Público.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Filologismo antidemocrático

            Acompanhamos os procedimentos e as revelações feitas durante as audiências do Comitê do Congresso Americano investigando o Caso Watergate. Homens poderosos expostos como patifes ordinários, protagonistas da subversão do Estado de Direito que haviam jurado defender. Parlamentares motivados pela pressão popular e as descobertas da imprensa,  outrora partidaristas acomodados ou legisladores medíocres, metamorfoseando-se em mestres do debate democrático e defensores da Constituição. Espetáculo cívico no picadeiro da democracia, a república sobreviveu ao seu maior desafio desde a Guerra Civil.

            Décadas após o Caso Watergate, a Operação Lava Jato descobriu a Pedra da Roseta de um esquema multibilionário de corrupção em plena metástase, envolvendo  os mestres do universo da política e da economia. A Policia Federal e o poder judiciário assegurando transparência nas investigações, indiciamentos e julgamentos. Sufocado pela carga de dezenas de suspeitos ou acusados de corrupção, o poder legislativo encenando um reality show com conflitos de interesses, platitudes e incompetência.  Eleitos para representar o povo, parlamentares sedentos por recursos de emendas e do fundo partidário ou cargos de confiança subestimando a democracia e o seu fortalecimento.

            O Parlamentar federal, estadual ou mesmo o municipal são franqueados pelo voto popular para exercer o poder em nome do povo. Sua grande maioria, no entanto, é eleita por ser despachantes que resolvem problemas, conseguem benefícios ou atendem a reivindicações particulares, muitas vezes ilegítimas. Deslizes éticos de políticos são ignoradas pelos eleitores, uma consequência direta de eleições proposicionais que limitam a relação de representatividade política entre o eleitor e o eleito. O Brasil só será capaz de combater sistematicamente  a corrupção política quando tivermos uma genuína reforma politica e quando o povo exercer seu dever democrático, sem o viés de interesse próprio, com civismo e comprometimento com as nossas instituições republicanas.


Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores