NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Compaixão seletiva

             Oportunismo e imediatismo midiático na cobertura de calamidades, conflitos ou terrorismo, antecipando o resultado dos esforços de resgatar, assistir às vítimas e de dimensionar o impacto do evento. Reações ao ataque terrorista em Paris é mais um exemplo. Enquanto o mundo ainda tentava compreender a tragédia, megafones humanos e políticos usando do momento para denunciar com narrativas cheias de hipérbole os perigos da imigração, controle de armas, comércio livre e inclusão social. 

Comprávamos frutas no mercado, quando ouvimos fragmentos de um discursão entre os habitués de um barzinho chamado Alta Pressão. Um homem argumentando: [...] a AA é culpada pelo terrorismo do Estado Islâmico, se não houvessem curado o alcoolismo de George Bush, ele jamais teria sido eleito presidente. Mentes sóbrias e experts consideram a invasão do Iraque como o divisor de águas na expansão do terrorismo na região e o nascimento do Estado Islâmico.

            Por décadas sofremos de fatiga de compaixão. Campanhas midiáticas, celebridades promovendo causas aleatórias e profissionais da miséria humana explorando sensibilidades afloradas por sentimentos de solidariedade, provocando reações desproporcionais, muitas vezes encobrindo preconceitos. Ataques terroristas perpetraram crimes hediondos contra vítimas inocentes na África, Oriente Médio, Paquistão e Índia, considerados alvos militares legítimos por serem pessoas de certas religiões ou grupos étnicos. Esquecidos prontamente, suas bandeiras ou símbolos ausentes das campanhas de solidariedade nas redes sociais e manifestações. 

Globalizando o pesar e a catarse provocados pelos ataques do EI em Paris, hasteamos a tricolor, cantamos La Marseillaise, protagonizamos a glória e as tragédias de um mundo eurocêntrico, os guardiães do templo da cultura e da civilização ocidental. Esquecemos as vítimas das tragédias que assolam nossas cidades, mesmo aquelas que são consideradas Patrimônio da Humanidade pelas Nações Unidas.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Bem longe do meio da rua...

Ocupando o espaço cibernético como se fossem pedaços de satélites e restos de asteroides flutuando entre as estrelas, vídeos humorísticos e montagens fotográficas protagonizando atores da tragicomédia brasileira. Expondo fissuras profundas, revelando perigos encobertos pelo mosaico colorido da nossa república. Informações embrulhadas em comentários mordazes e acusações de malfeitos, provocando reações hilárias entre simpatizantes ou o escárnio dos defensores da conjuntura atual. 

Proselitismo político-partidário não aparenta ser o principal motivo das mensagens curtas e contundentes, geralmente disseminadas em redes sociais de pessoas afins e defensores das mesmas posturas. Protagonistas no diálogo de surdos e na propagação da metástase da intolerância que assola o país, ofuscando os benefícios da liberdade de expressão com gargalhadas, chacotas, ícones e muitos kkkkkkkks. Exânime no morgue das ideias daqueles que não conseguem rir das nossas tristezas, um genuíno debate nacional sobre os prospectos e futuro de um Brasil do futuro.

Enquanto rimos, políticos e seus acólitos continuam saqueando o erário como se fossem piratas de uma nova ordem celestial. Criando novas alianças, formando conluios, propondo legislação que garanta imunidade por deslizes éticos ou apropriação de bens da coisa pública. Crimes encobertos por privilégios e imunidades, matilhas de lobos selvagens operando livremente na nossa paisagem sofrida, beneficiários da incompetência e da cumplicidade de um poder executivo agonizante. Palhaços a procura do picadeiro de um circo sem toldo, espelhos mágicos ou as acrobacias das deusas do trapézio. Palhaços, palhaços, palhaços, são os únicos atos que restaram.

 “O raio, o sol suspende a lua, olha o palhaço no meio da rua”, olhos ocupados nas telinhas com mensagens cômicas sobre os palhaços que partiram das ruas. Todos nós partimos das ruas... Hoje vivemos no mundo das mensagens eletrônicas e factoides, entorpecendo medos e ansiedade sobre o futuro. Rimos da nossa própria miséria, enquanto o circo é incendiado por palhaços competindo pelo mesmo picadeiro.   


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores