NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sábado, 23 de janeiro de 2016

O homem medíocre

             Flores amarelas dos ipês da lagoa e o verde vibrante do bambuzal adornando nosso ponto de encontro, pequeno banco de madeira camuflado parcialmente pela folhagem. Gemidos de bambus e uivos do vento tímido do entardecer oferecendo um contraponto à calma da tarde. Crescendo ao aproximar-se à figura diminuta de uma jovem mulher caminhando, deliberadamente pisoteando gravetos e machucando flores. Notamos que carregava algo aninhado dentro dos braços cruzados, um livro chamado: O Homem Medíocre, do argentino José Ingenieros. Éramos colegas de escola e o encontro não era furtivo, nem romântico. Passaríamos muitas tardes assim, viajando com as palavras sábias do autor.

Conversávamos sobre a mediocridade presente na nossa sociedade. Falávamos daqueles envolvidos em rotinas previsíveis. Pessoas prudentes, pragmáticas e sem ideais. Incapazes de sonhar, de aventurar além dos instintos e necessidades do momento. O homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade. É por essência imitativo e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, repetindo rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade, afirma José Ingenieros. Ensinamentos que se transformaram em uma estrada que percorreríamos pelo resto das nossas vidas. Quando nos reencontramos, trocamos sorrisos cúmplices sobre nossas trajetórias. Sabemos que nunca fomos o que o filósofo descreveu.

Nos transformamos em uma sociedade temerosa do desconhecido, a desconfiança escondendo mil preconceitos. Olhamos para o passado procurando uma justificativa para o marasmo ético, sem considerar os benefícios da sabedoria dos anciões. Fantasmas projetados nas opiniões alheias. Afogados em mediocridade moralmente perigosa, uma mediocridade nociva às vicissitudes do momento. Líderes de todas as castas e tendências do terreno baixo da moralidade, medíocres que gostam das crises, pois é nelas que podem brilhar...


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Sol, sons e sonhos

              Lágrimas de encarcerados da prisão de Robben Island, homens negros enfrentando com convicção e coragem as condições draconianas em que viviam. Hoje choravam, separados do mundo desigual que eles queriam mudar. Muro impenetrável e um oceano hostil. Trabalhando na pedreira, repentinamente ouvindo vozes e gritos de crianças pela primeira vez há muitos anos. Rememorando a ocasião, os olhos úmidos do meu interlocutor procurando no centro do crânio resquícios duradouros daquele momento. Esperança, crianças trazendo o futuro mais próximo. Incertezas do presente perdidas na contemplação da beleza da liberdade de vozes infantis.

            Tínhamos uma visão ampla do mar turquesa. Oceano retangular, emoldurado pelos galhos arqueados da copa do cajueiro e a areia da praia.  Momento de paz e solidão criativa, distraído ocasionalmente pelo balé das marolas, gritos infantis e o cheiro intenso da maresia. Sete crianças desafiando a força das águas, extrapolando os limites da capacidade física e da criatividade. Diante deles, um mundo infinito de adereços, trazidos pelo mar ou improvisados para criar uma nova atividade. Pedaço de isopor usado como uma prancha, varas transformadas em caniços, ou simplesmente correndo em todas as direções como se escapando de quimeras escondidas nas brancas espumas do mar da Bahia. Pessoas e animais passando despercebidas.

            Pequenas tartarugas tentando sair do sargaço, anônimas, perdidas na imensidão da areia em busca da imensidão do mar. Descobertos pelas crianças, os répteis transformando-se em objetos didáticos. Pequenas mãos formando conchas para transportá-los até um ponto seguro. Missão cumprida, a brincadeira recomeçando repentinamente. Observávamos um mundo infantil em mudança perpétua. Revivemos aqueles tempos quando erámos crianças, tudo era o possível e nada o impossível. Lembramos dos homens de Robben Island.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Vilarejos Potemkin do Brasi

Gregory Potemkin governava a Crimeia, quando a Imperatriz Catarina II da Rússia anunciou uma visita oficial ao território conquistado em uma guerra contra os Otomanos. O entourage de Sua Majestade incluía altas autoridades e membros da realeza europeia. Lamentavelmente os cofres públicos estavam exauridos, devido aos gastos extraordinários da campanha militar. Homem criativo, o governante decidiu algo inusitado para impressionar os visitantes: construiria um vilarejo virtual ás margens de um rio no caminho da ilustre caravana. Casas com frentes falsas, seus soldados posando como residentes. Desarmavam as estruturas durante a noite, criando outros vilarejos no itinerário da comitiva. Impressionados, a Soberana e sua delegação, partiram.

O Brasil é hoje um canteiro de obras não começadas ou não concluídas, apesar da abundância de recursos anunciados ou disponibilizados pelo governo federal e através de emendas parlamentares. Falta de capacidade institucional, incompetência, corrupção e o mal-uso dos recursos advindos de emendas parlamentares nas últimas décadas, criaram cemitérios de projetos. Robustamente decorados com memoriais realçando a competência das entidades gestoras, muitos deles financiados como moeda de troca de favores entre o poder executivo e legisladores federais.

            Proximidade das eleições municipais promovendo uma onda de novos projetos, principalmente aqueles turbinados por emendas parlamentares e pela propaganda financiada pelo Fundo Partidário, enaltecendo as qualidades de postulantes a prefeituras municipais. Diferente dos vilarejos de Potemkin, frutos da pobreza da Crimeia, os nossos foram criados pela abundância e a malversação de recursos por burocratas incompetentes e práticas de corrupção. Decepcionados ao acordar dos sonhos e das fantasias exuberantes dos nossos vilarejos, sufocados respiramos os gases nocivos de uma crise econômica se expandindo na atmosfera, poluída pela corrupção política, improbidade administrativa e pela podridão fisiologista dos nossos parlamentares.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores