NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Xangri-lá na Serra de São Bento

             Diminutos objetos retangulares quebrando a hegemonia verde cinza da paisagem insípida dos vales planos do agreste potiguar. Paramos em uma curva para observar a estranha aparição. Parecia que estávamos nos movendo em direção a um encontro do terceiro grau, uma base secreta de extraterrestres erguida sobre uma enorme pedra.  Encontraríamos poucas testemunhas, pedras milenares e cruzes na beira do caminho, marcos da distância percorrida pela raça humana -- da morte por armas de pedra aos desastres fatais de motocicleta. Touceira de boninas nos trouxe de volta à realidade do momento: buscávamos um refúgio temporário das nuvens negras e tormentas ofuscando as possibilidades de um Brasil que sonhávamos ainda ser possível.

            Visão surreal do vale, o chão de vidro do terraço precariamente equilibrado sobre uma enorme pedra. Luz verde iluminando indiretamente a estrutura, dando um toque de mistério ao matagal diante de nós. Apitos, assobios, grasnados, guinchados perdidos no farfalhar das árvores.  Completando o mise en scène, estrelas flutuando na escuridão discreta do céu, noite de infinita paz. Como se regida por um maestro, a sinfonia acabou, a noite dormiu. Dormimos como crianças na Terra Prometida.

            Malaquias, o guia da pousada, explicou nosso percurso em um tom de voz suave e profissional. Éramos seis adultos, perguntamos discretamente sobre escorpiões, batráquios e perigos do caminho. Próximo da trilha notamos uma pequena serpente, marcas típicas de uma cobra-coral. Perigo iminente, ninguém posou para um selfie...

            Boca contorcida esculpida na gigantesca pedra, filas indianas de figuras liliputianas caminhando aleatoriamente no interior da cavidade. Pessoas contemplando uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, o altar diante de um pano de fundo de pinturas rupestres na tela rochosa. Romeiros, peregrinos, fieis seriam transportados por centenas de veículos, aproveitando-se da sazonalidade de um evento religioso celebrado no santuário. Procurando a paz e a salvação entre as pedras do caminho, todos nós...


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 17 de abril de 2016

The day after ...

            Amanheci com uma imensa tristeza pelas disputas asfixiando nossa capacidade de observar, pensar e agir fraternalmente ou pelos menos civilmente. Somos um povo perdido na sua própria Estrada de Damasco. Estamos diante de dois gladiadores. Ambos se descrevem como mais forte, mais ético e mais merecedor da confiança do povo brasileiro. O combate terminará com a morte súbita e cruel de um dos protagonistas. Será difícil dialogar com um morto...

            A cidade molhada estava apreensiva e temerosa de um futuro incerto. O futuro glorioso, uma quimera. Pecamos como um povo: escolhemos líderes errados, toleramos e/ou cometemos atos corruptos avançando nossas prioridades, esquecemos da responsabilidade cidadã de demandar prestação de contas e honestidade daqueles em que confiamos nosso voto livre. Agora somos vítimas da tragédia que ajudamos a criar.

            Independente do resultado do processo de impeachment da Presidente, o povo será a grande vítima. Artimanhas, promessas ardorosas, distorções e corrupção eleitoreira pura e simples, motivarão parlamentares a optar por um dos dois gladiadores.  Nós os elegemos, agora eles subvertem as intenções dos nossos votos pelo interesse próprio.

            Esqueçamos de partidos políticos, eles deixaram de nos representar há muito tempo! Não vale a pena perder amigos, dividir famílias ou adotar os estereótipos ou imagens que nos atribuíram. Nós, o povo, temos o dever de expiar a nossa cumplicidade, quando escolhemos falsos profetas, líderes corruptos e aceitamos o nepotismo eleitoral. Devemos pensar prioritariamente no Brasil. Rejeitando todos aqueles que saquearam o Tesouro Nacional, que destruíram nossa Petrobras, que usaram cargos de confiança e fisiologismo para subverter nossa liberdade. Devemos apoiar a autonomia e as ações daqueles que honram e defendem nossa democracia.

 Palmarí H de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

Texto original (O dia de hoje) atualizado
             

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Déjà vu do Watergate

            Na audiência do Comité do Impeachment, as palavras da Deputada Federal Barbara Jordan, ressonaram com rara claridade em um ambiente contagiado pelo partidarismo: “[...] é uma leitura errada da Constituição afirmar que para votar por um artigo de impeachment é preciso que qualquer membro parlamentário deva ser convencido de que o presidente deve ser removido da função. A constituição não diz isto. Poderes relevantes ao impeachment são um controle essencial nas mãos do Legislativo contra e sobre os abusos do Poder Executivo. A divisão entre as duas casas legislativas: Câmara de Deputados e o Senado, dá a uma o direito de acusar e à outra o direito de julgar, os formuladores da Constituição [...] não combinaram acusadores e juízes como uma mesma pessoa [...]”. Emoldurando o rito e a constitucionalidade do impeachment, o discurso é considerado um dos cem mais importantes do século XX.

            O escândalo do Watergate expôs brechas no sistema eleitoral, revelando vícios de um sistema politico-eleitoral passivo aos caprichos e fantasias da presidência imperial de Richard Nixon e às manipulações de seus auxiliares. Presidente Nixon renunciou evitando ser condenado à prisão, dois anos depois, sete funcionários sêniores da Presidência sentenciados à prisão por conspiração e obstrução à justiça. O Juiz Federal John Sirica venerado por sua coragem, compromisso ético e fidelidade à Constituição, homônimo stricto sensu do nosso Juiz Sergio Moro.

            Quatro décadas depois do Watergate, vivenciamos nosso maior escândalo. Em Cervantes, comparações são odiosas. Atualmente podemos sentir algumas semelhanças com os acontecimentos da era Nixon. Carecemos de políticos com honestidade intelectual e compromisso ético. Expostos diariamente na mídia clamam ser vitimas de “vazamentos seletivos”, fazendo acusações similares as do Presidente Nixon e seus acólitos quando confrontados com informações confidenciais, compartilhadas com jornalistas pelo então vice-diretor do FBI, alcunhado como “Garganta Profunda”. 

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

ERRATA: fui indentificado na postagem inicial como " membro da União Brasileira de Estudantes". O titulo correto é membro da União Brasileira de Escritores.



quarta-feira, 6 de abril de 2016

Guerra contra o desemprego

            Desafiando a lógica das guerras civis mesoamericanas, Costa Rica seguia sua caminhada dentro de uma superfície pequena e desmilitarizada, coexistindo pacificamente com todas as partes interessadas sem o ônus de gastos extraordinários para manter estruturas contaminadas pelo viés ideológico. Estávamos nos finais dos anos de 1980, a beligerância e enfrentamentos armados começando a sucumbir às mudanças no comportamento dos principais atores do mundo bipolar, os patrocinadores das guerras. A queda do muro de Berlim, o crescendo de uma sinfonia inacabada...

            Homem moreno de estatura mediana vestido em um traje de linho estilo safari, apresentou-se sem grande formalidade ao nosso escritório em San José, na Costa Rica, chamava-se Clodomir de Morais. Exilado nos anos da ditadura brasileira, retornara em 1988 para participar em uma guerra contra o desemprego e a dependência através da Metodologia de Capacitação Massiva que ajudara a desenvolver, em bem-sucedidos projetos das Nações Unidas, ONGs e organizações humanitárias da Igreja Católica na América Latina e na África.  Seria sua grande batalha até a morte em março deste ano.

            A metodologia se baseava na pressuposição de que as pessoas têm potencialidades que podem ser otimizadas e que recursos humanos e materiais não utilizados em comunidades pobres podem ser mobilizados na criação de atividades produtivas, em um contexto de desenvolvimento local e sustentável. Auto-gestão comunitária superando a dependência fomentada por “[...] lideranças de tipo paternalista, baseadas na distribuição de favores alimentados pelos cofres públicos."

            Vivemos um clima de desemprego, dependência e a herança de programas sociais condescendentes atrofiando a capacidade de auto-gestão de comunidades pobres, vitimados pela criminalidade e excessos policiais. Talvez seja hora de aperfeiçoar e relançar sua metodologia de capacitação massiva, de declararmos uma guerra aberta contra a praga do desemprego que assola o país.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores