NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

No próximo ano em New York ...

            Memorável jantar em New York, sempre repetido o ritual que marcava mais uma despedida da cidade onde vivêramos por quatro décadas. Restaurante favorito, às vezes meus os filhos escolhiam algo novo. Anfitriões competentes, mestres do ritual das separações temporárias. Memórias de viagens, infância e adolescência em lugares distantes e sempre pequenas surpresas servidas aleatoriamente como se fossem canapés nas bandejas da vida. Gastronomia inovadora de gosto eclético, música de fundo agradável às nossas preferências, possibilidade de uma noitada passível de inspirar boas lembranças guiavam nossas escolhas. Encontrando-se levemente em brindes, o ruído alegre de taças comemorando o simbolismo do momento.

            Toldo vermelho encardido próximo a esquina das ruas East Houston e Melrose, no Baixo Manhattan Leste, a única informação que tínhamos sobre o local da nossa despedida. Restaurante chamado Emilio’s Ballato, nossa primeira impressão é que estávamos diante de uma pizzaria em decadência ou o cenário minimalista de uma cena de um filme noir italiano. Clima de mistério, uma neblina fina lustrando a superfície da calçada, pedestres atravessando a rua cautelosamente. 

            O interior nos surpreendeu, paredes decoradas com fotografias, capas de discos e souvenires de pop stars e celebridades. Andy Warhol e John Lennon, quando o proprietário era John Ballato, David Bowie, Billy Joel, Rihanna, Lenny Kravitz, e Justin Beber, Sheryl Crow, entre seus leais frequentadores. Descobrimos imediatamente porque um restaurante tão despretensioso atraia a famosos e anônimos. Culinária inovadora e impecável discrição sempre sob o olhar vigilante do proprietário e uma enormidade de pessoa chamado Senhor Vitolo, são o segredo do sucesso do lugar.

            Terminamos como começamos, alegres. Alegres como um grupo interracial comemorando o aniversário de uma loura inquieta, o mosaico de uma noite com sabor de volta, tomara, no próximo ano em New York...


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os ardis da democracia brasileira

      Motivados quase sempre pela busca ou permanência no poder, oportunistas, populistas ou demagogos nos governam hoje. Filósofos, altruístas e virtuosos, entre eles, são notáveis exceções. Interesses pessoais ou partidários subestimam o bem comum, invariavelmente atrofiando o fortalecimento das instituições democráticas que eles juraram defender e preservar. Engajados em combates entre tribos de guerreiros ardilosos, chefiados por lideres predatórios de vocações e princípios questionáveis, bem acomodados moralmente à direita de Átila, o Huno.

     Os embates da política do poder e sua retórica antagonista, repetidamente usada sem um traço de civilidade, são vistas como moeda corrente nas relações pessoais, profissionais ou institucionais, quer seja no governo ou no mundo dos negócios. Eficazes em sua capilaridade, essas práticas contaminam a sociedade e o eleitorado, entorpecem o debate democrático e permitem a perpetuidade do poder de agentes políticos, muitas vezes violando conceitos democráticos fundamentais como a separação do poder legislativo, o poder executivo e o poder judiciário.

     Vivemos um momento de mudanças drásticas no Brasil, entretanto o troca-troca de influência e poder entre o legislativo e o executivo continua sendo usado para cooptar partidos ou políticos a apoiar a Presidência – antes ou depois do impeachment.  O Mensalão e a  Operação Lava Jato demonstram claramente que a porta-giratória entre o poder executivo e o legislativo proporcionaram a criação de um clima favorável à corrupção, os conflitos de interesses e a instabilidade política e econômica.

     É incompatível com o presidencialismo brasileiro, portanto, continuar recebendo enxertos do Parlamentarismo permitindo assim que legisladores exerçam funções de ministros ou secretários de estado sem a necessidade de renunciar aos seus mandatos. Proposta de Emenda à Constituição impedindo legisladores de aceitar convites para assumir funções no Poder Executivo, seria um passo na direção certa...


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Impeachment: o primeiro passo

             Enfrentamos recentemente a tarefa quase impossível de dar uma explicação lógica sobre a participação de 150 parlamentares, entre os apoiadores ou adversários do impeachment da Presidente, que estão sendo investigados em inquéritos ou ações penais no Supremo Tribunal Federal. Acusações que variam de crime de responsabilidade – como o atribuído a Dilma – corrupção, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica formação de quadrilha e desvio de verba pública. Aumentando a perplexidade do meu jovem interlocutor, a impunidade desfrutada pelo Deputado Eduardo Cunha, Presidente da Câmara através de manobras regimentais, fisiologismo político, uso indevido de poderes e as práticas corruptas se metastizando nas entranhas do nosso parlamento. Frustrado, sugeriu a instalação de um Tribunal de Falência Moral, para julgar aqueles que trouxeram o país à borda de transformar-se em uma tragédia bolivariana.
            O Brasil tem um sistema de foro privilegiado mais abrangente e de uma magnitude maior do que qualquer outro país do mundo. A Constituição de 1988 oferece imunidade parlamentar para ações relevantes às funções parlamentares e também para crimes comuns cometidos durante o exercício do mandato. Convenhamos que as regras foram criadas em uma época em que exorcizávamos os demônios de um regime autocrático, a Ditadura Militar, para garantir a proteção do parlamentar contra os caprichos, fantasias e as investidas antidemocráticas do poder autoritário.  
            Estamos vivendo um processo de impeachment contra um presidente, o segundo desde o retorno a democracia. Temos como pano de fundo o maior escândalo de corrupção do país: abutres políticos banqueteando-se na podridão que eles criaram, blindados por imunidade parlamentar. Corremos o risco de continuar protegendo criminosos com as regras que foram criadas para coibir ações de índole autoritária e os riscos à liberdade inerentes a um regime ditatorial. Muitas reformas politicas ainda são necessárias, o impeachment é só o primeiro passo. 

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores