NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 26 de junho de 2016

Armadilha da autocensura

            Vivemos dias de grande ansiedade e descrença sobre nossa capacidade de encontrar soluções duradouras para os problemas que ameaçam a solvência da democracia brasileira. Armas poderosas do arsenal obsoleto do infantilismo político-partidário, agressão e a autocensura promovem um clima de acirramento de divisões profundas na sociedade. Debates se transformam em conflitos de opiniões e variações questionáveis sobre o mesmo tema.  Dicotomia vencedor/perdedor aparentando ser a opção preferencial dos protagonistas, descartando qualquer possibilidade de encontrar soluções onde todas as partes são vencedoras e equitativamente responsáveis por condutas e atos lesivos ao patrimônio da nação.

            Somos uma sociedade maculada por deslizes éticos afetando nosso cotidiano. Presenciamos ou participamos muitas vezes de algo que censuramos, seja por razões pessoais, institucionais ou para proteger as facetas mais íntimas das nossas convicções. Conversamos em generalidades ou codinomes sem nunca identificar ou expressar um pensamento que penetre a epiderme de um organismo fragilizado pela baixa imunidade às crises. Suprimimos palavras e opiniões interiorizando a censura, forma mais opressiva e difícil de combater do que a censura explicita que nos oprimiu por mais de duas décadas. Agora somos nossos próprios censores.

            Operamos do ponto de vista que a liberdade de expressão acaba quando começa a ofensa alheia. Seja por razões de expediência política ou mesmo para autocensurar o que assumimos ser ofensivo ou incômodo para certas pessoas, grupos ou religiões. George Orwell nos chama repetidamente a atenção sobre a prática de defender o que as pessoas em geral e as boas consciências exigem, ao mesmo tempo defendendo o ponto de vista oposto para agradar seus interlocutores. Esta dualidade é a raiz da intolerância invisível, escorregadia e cruel enrustida na autocensura. Tolerância é tolerar o que consideramos errado, incômodo ou muitas vezes ofensivo ao nosso estilo de vida. Autocensura promove o tipo de intolerância mais difícil de identificar e de conciliar as diferenças que dificultam o convívio pacífico multicultural.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 14 de junho de 2016

Cegueira deliberada

            A recente decisão judicial tornando Claudia Cunha ré em uma ação penal por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, com base na teoria de “cegueira deliberada”, abriu o caminho para novas ações contra políticos e empresários corruptos.  Teoria usada principalmente nos casos de “colarinho branco” nos Estados Unidos quando o suspeito da infração ignora deliberadamente a origem dos bens que desfruta. Embora não sejam acusados como agentes ativos dos atos ilícitos na Petrobras e outras estatais, a postura do ex-presidente Lula e da presidente afastada Dilma Rousseff, mostra indícios de negligência maléfica sobre a corrupção e a instrumentalização política do patrimônio das empresas.

            Apesar do impacto negativo na economia brasileira, a queda vertiginosa da Petrobras, aconteceu diante dos olhos daqueles responsáveis pela gestão e preservação do patrimônio do Brasil. Resta estabelecer se a cegueira deliberada foi causada por serem cúmplices silenciosos em uma cleptocracia assegurando a impunidade de agentes políticos, interesses de partidos fisiologistas, garantindo a governabilidade do presidencialismo através de manobras e práticas corruptas à revelia dos interesses do povo e em detrimento do Estado de Direito.


O conceito de cegueira deliberada originou-se no século XIX, após um juiz americano decidir que um acusado não podia ser condenando pela possessão ilegal de propriedade do governo se o júri não estabelecer a existência de conhecimento prévio sobre a propriedade ou que o acusado havia fechado os olhos deliberadamente. É usado principalmente em casos de lavagem de dinheiro ou tráfico de drogas, como também contra a pedofilia. Caracterizado por casos que seguem a mesma trajetória: anos de abuso envolvendo um grande número de participantes e sinais óbvios de que algo está errado, seguidos sempre por gritos de protesto e inocência quando algo é descoberto. É isso que começamos a descobrir....

Palmari H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 6 de junho de 2016

De Guatemala para Guatepior

            Ceticismo e desconforto começara a germinar durante as manifestações na época dos Jogos Pan-americanos de 2013. Sentimento reforçado pela incapacidade do poder público de responder minimamente às demandas da sociedade brasileira. Resultados esportivos inaceitáveis e corrupção no Mundial de 2014, mostrando sérias e profundas fissuras na superfície prístina de um Brasil emergente manufaturado por marqueteiros partidários. Considerado como o melhor do mundo, o futebol brasileiro transformou-se em uma caricatura deprimente de uma instituição nacional, o orgulho do povo e o objeto de desejo de todos os países do mundo. Atravessamos o Rubicão a partir de então...
           
            Vieram os Idos de Maio, um parlamento acostumado aos arranjos e manobras feitas em lugares imunes à luz do sol, explodiu como uma panela sob a pressão de uma malcheirosa sopa de miúdos. O fedor espalhando-se pelo o ar rarefeito do Planalto Central. Acusações, impropérios, gritos, ilações e hipérboles, as ferramentas preferidas dos políticos medíocres que dizem nos representar. O impeachment da presidente criou dois campos adversários: ambos certos, ambos errados. Transformaram o mundo em uma imensa lavanderia para a roupa suja do desgoverno, fisiologismo e corrupção brasileira. Passada a reação inicial, o mundo entendeu que o problema era mais profundo:  chama-se Congresso Brasileiro, uma instituição descrita pelo New York Times como um circo de 594 personagens com seu próprio palhaço. Os presidentes de ambas casas do legislativo, suspeitos de uma multiplicidade de crimes e ofensas.

            Há algumas semanas, tivemos a oportunidade de conviver com as reações da sociedade americana sobre recentes acontecimentos no Brasil. Ouvimos opiniões de pessoas com investimentos no Brasil ou em ações da Petrobras e Letras do Tesouro, todos temendo que o atoleiro político do momento seja o prelúdio de acontecimentos indescritíveis contra a democracia e concomitante efeito negativo para a estabilidade socioeconômica da América Latina. Parece que vamos de Guatemala para Guatepior...

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores