NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 19 de julho de 2016

São demais os perigos das calçadas

 Caminhando timidamente no leito carroçável da avenida, um idoso e seu acompanhante navegando os perigos e desafios de um logradouro propenso à engarrafamentos e acidentes. Motoqueiros aparecendo subitamente, ultrapassando outros veículos ou pessoas pelo acostamento ou a superfície da calçada. Calçadas cheias de declives, buracos, árvores, postes e barracas transformando pequenas incursões no espaço urbano em perigosas gincanas pela sobrevivência. Pessoas vulneráveis condenadas a enfrentar os riscos do cotidiano, competindo assimetricamente com veículos automotores e de tração animal pelo mesmo espaço. Pessoas vulneráveis vivendo em tempo emprestado...

O Ministério Público, três anos atrás, demandou providências para corrigir transgressões do Código de Posturas violando o artigo 172 que proíbe especificamente qualquer elemento fixo ou móvel sobre as calçadas. Prometendo criar fundamentos operacionais da ação de padronização, a Prefeitura Municipal assegurou que novas edificações seriam obrigadas a construir calçadas usando normas estabelecidos pela edilidade. A grande variedade dos estilos e padrões das calçadas em novas construções a evidencia a ausência de providências concretas para a implantação de ações de padronização ou requalificação, principalmente em alguns logradouros de baixo octanagem eleitoral, mesmo quando financiado pelo Governo Federal.  

Segundo a escritora americana Jane Jacobs, as calçadas são equipamentos essenciais na manutenção da segurança de áreas urbanas. Cidades inseguras têm calçadas inseguras. A maioria da nossa população e usuários do transporte público é vulnerável a crimes, agressões e perigos encubados em logradouros escuros e paradas de ônibus, sempre em péssimo estado de manutenção e segurança. Morte nas calçadas das áreas ermas da cidade começa frequentemente quando o poder público é remisso em estender os benefícios da cidadania e na aplicação equitativa de recursos públicos.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

Setenta e cinco anos

            Acordamos pensando em Lisboa, ou melhor, pensando na tristeza enrustida nos fados, nas lembranças de coisas portuguesas. Palavra única nossa, saudade é o DNA lexicológico da língua portuguesa. “Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal! “. Setenta e cinco anos na terra da saudade, sem remoer aquelas alegrias, tristezas ou mudanças que passaram ou feneceram nas encostas do nosso caminho. Palavras de Camões explicam tudo: o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Tábula rasa ...  

Subiríamos a ladeira da Torre da Regaleira revivendo os dias passados, as arvores, as fontes e os jardins guardiões de castelos misteriosos quase sagrados. Ódios e amores convivendo como placas tectônicas. Chegaríamos ao topo com o vigor ofegante de anos bem vividos, diante de nós o Castelo dos Seteais. Palco do desfecho trágico do romance da princesa muçulmana Anasir com um nobre cristão português. Lendas virando tragédias, tragédias virando lendas. Vivíamos o mesmo dilema nos tempos modernos, somos vítimas da intolerância e suas paixões irracionais.

            Faríamos um pequeno desvio na curva da ladeira para almoçar no Hotel Lawrence’s, visitando personagens dos Maias de Eça de Queiroz. Carlos da Maia convidando seu amigo Cruges para jantar, pretexto para encontrar-se com sua amante Maria Eduarda, a deusa da sua paixão incestuosa. Acompanharíamos a Peregrinação de Childe Harold, Lord Byron narrando poeticamente as reflexões e as viagens de um homem desiludido à procura de salvação em terras estrangeiras, um herói inteligente, perceptivo e adaptável às mudanças. Procurando, sempre procurando.  

            Passagens por Portugal sempre vivenciando algum ritual ou marco de vida. Companheiros na próxima etapa na cronologia da nossa vida, nossos filhos ficariam com a memória de uma aventura como adultos. Duas décadas atrás, atravessamos campos de girassóis e árvores de sobreiro em busca das nossas origens em Córdoba. Como um legado, ficaram muitas lembranças. E aqui se aprende a dizer saudade...
 

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sonho de uma tarde de inverno

             Majestade das palmeiras embaçada pelo céu cinzento, quimeras aparecendo e desaparecendo no espelho d’agua. Imagens entrelaçadas em um momento de luz, procurávamos o passado no presente. Vozes perdidas na balbúrdia do restaurante, telas dos seus celulares bloqueando a visão ao nosso dispor. Resistimos à distração intramural.  Bicicletas e patins seguindo tranquilamente a circunferência da lagoa, sem a adrenalina e a audácia difusa do um playground humano. Ausência de carros e motos, gramados bem cuidados e equipamentos urbanos ainda cheirando a tinta, estávamos em um lugar mágico sem cheiro de perigo. Havíamos voltado ao passado...

            Palco de um comício memorável do Cavalheiro da Esperança, o Cassino da Lagoa abrigava manifestações políticas e espetáculos musicais, independente do viés ou tendência dos protagonistas. Chão comum da comunidade, alheio às divisões do espaço social prevalentes na sociedade. Dançávamos ao som de conjuntos “prata da casa “ competindo com os metais estridentes e os gritos primais dos músicos de Ruy Rey, o Rei do Mambo do Brasil e o romanticismo meloso de Ray Conniff. Ah! Como sonhávamos embalados pela música de Waldir Calmon, a trilha sonora de um primeiro beijo. Homem em uma bicicleta ordinária tentando suportar vinte e quatro horas pedalando ao redor da Lagoa, tudo era uma novidade. Outra lembrança.

            Perdemos nossa inocência. O Parque Sólon de Lucena de alhures desapareceu do nosso cotidiano. Lumpenização causada pela falta de medidas concretas para a instalação de saneamento moderno, reordenamento urbano e a restauração das áreas verdes no seu entorno, transformando o logradouro em uma área desdenhada e temida pela população. Repentinamente, ouvimos risos e gritos de crianças brincando nos equipamentos e na grama verde, o presente ressuscitou o passado feliz, com o cheirinho gostoso da comida do restaurante. Sentíamos mais segurança na tarde tranquila do presente, degustando bocados dos dias passados.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores