NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Os meninos de Cunha

            O melodrama político da cassação do todo-poderoso Eduardo Cunha fechou a cortina do teatro do absurdo, protagonizado por uma turba de anti-heróis, bajuladores e ilusionistas do poder. Traído e derrotado, seu personagem principal nunca havia considerado a grande lição do filosofo Sêneca: "Vê aqueles que elogiam a eloquência, escoltam a riqueza, adulam os benfeitores, louvam o poder? Todos são inimigos, ou podem sê-lo." Muitos foram... Acólitos do desgraçado parlamentar desapareceram na calada da noite à procura de um refúgio nas trevas, longe da cumplicidade nos deslizes éticos e do prestígio inerente à proximidade das benesses do poder corruptor.

            Capilarizando manobras escusas e valendo-se do quid pro quo político para obter tração eleitoral em lugares distantes de Brasília, os “meninos de Cunha” se reinventando como protagonistas em pleitos municipais. Buscando a manutenção dos
seus privilégios e imunidades através de candidatura a cargos menores, eventualmente tomando posse do cargo máximo da municipalidade no término do mandato federal. Usando influência política e esquemas corporativos, o parlamentar direcionaria emendas e outras verbas para viabilizar a nova empreitada eleitoral.

            Tentativas de agentes políticos de demonizar investigações de práticas corruptas e de aproveitar-se de brechas na legislação eleitoral, expõem a natureza transacional e os riscos de conflito de interesses inerente à atividade política contemporânea. Por um lado, temos políticos tentando debilitar as normas constitucionais que eles juraram defender, por outro lado, temos membros concursados do serviço público abrindo as portas do governo de uma maneira transparente, com rigor técnico e dever de diligência.

            Esforços de mudar nossas instituições serão inviabilizados se o eleitorado permitir que esquemas de permanência no poder, apadrinhados políticos e herdeiros de capitanias eleitorais hereditárias, continuem frustrando possibilidades de escolhas genuinamente democráticas de candidatos aos cargos eletivos municipais.


Palmarí H. de Lucena, membro de União Brasileira de Escritores

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cidade sem memória

            Aparentemente em busca de algum objeto tangível escapando dos olhos e da imaginação de adultos que as acompanhavam, crianças correndo à procura de coisas pequenas na imensidão do logradouro. Momentos vividos na calma quase monástica da tarde, embelezados pelo esplendor do mosaico multicolorido de flores aninhadas em canteiros geometricamente compatíveis. Passarelas desenhadas no traçado da bandeira do Reino Unido, convergindo para o obelisco do primeiro centenário da luta pela Independência do Brasil. Restaurada e reinaugurada, a praça devolvida à vocação original idealizada pelo filantropismo visionário de Walfredo Guedes Pereira, eternizado pelo traço mágico do arquiteto Hermenegildo di Lascio. Divisor de águas entre séculos de história e a crescente muralha de concreto beirando o oceano.

            Casarão em ruinas na parte posterior da Praça da Independência, contrastando a beleza e o futurismo do retorno ao passado do logradouro, nos remetia para a absoluta e maléfica negligência com o nosso patrimônio cultural. Péssimas condições físicas e aparente abandono do imóvel designado e anunciado por três governadores como o futuro Museu da Cidade – Império e República. Casarões, igrejas, logradouros e bens materiais adquiridos e mantidos por gerações, todos condenados ao esquecimento e eventual extinção. Somos a terceira cidade mais antiga do Brasil, museu ao céu aberto da materialidade da demagogia de uma classe política mais preocupada com as artimanhas partidárias e a expansão do seu patrimônio político.

            Acessibilidade a cultura e a alfabetização cultural são os neurônios complementares da nossa memória coletiva. Agregando ao dano patrimonial causado pela ausência de um Museu da Cidade, temos também que considerar a falta de compromisso da Prefeitura Municipal com programas de educação patrimonial nas escolas e a relutância do poder público em realizar um inventário dos bens móveis e monumentos públicos sob a responsabilidade do Estado e do Município.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Desafios não são deficiências...

 Velocistas cegos em competição acirrada por uma medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos de 2016, milhares de pessoas seguindo o progresso dos atletas entre as duas linhas paralelas visíveis ao público. Expressando admiração exagerada pelos obstáculos superados e histórias de triunfo pessoal abundam, muitas delas confeitadas com pieguice e condescendência. Pessoas cegas antes tratadas com desprezo ou impaciência, agora transformadas em gladiadores nas arenas do espetáculo paraolímpico. Esqueceríamos por instantes dos “ceguinhos” que encontramos nas nossas ruas, sobrevivendo à falta de mobilidade e à inércia do poder público. 

        Quatro décadas se hão passado, desde que o músico e folclorista Tenente Lucena constatou que três músicos surdos-mudos da “tribo carnavalesca” Índios Papa Amarelo, se destacavam pela rigorosa obediência ao ritmo. Surgiu então a ideia de ensinar música e formar uma banda usando uma metodologia que valorizasse a habilidade que tinham de sentir a música e o ritmo no coração. Podiam ser bons músicos ou bailarinos. Villa-Lobos havia identificado o coração humano como o metrônomo da alma durante sua visita a João Pessoa, nos anos de 1950. Os surdos-mudos, o grande maestro e o músico paraibano, entendiam a fortaleza criativa de um ser humano: seu coração. 


       Restaurante no México, homem com câmera na mão, convidando visitantes a participar de um evento chamado “Ceia na escuridão”, jantar organizado por fotógrafos cegos. Seguiu-se uma mostra e um leilão do trabalho fotográfico dos participantes, imagens formadas por processos mentais através dos outros sentidos. Videntes contemplando criações de olhos que sentiam o mundo na escuridão, pessoas com desafios visuais fazendo o mundo enxergar suas próprias limitações ou pelo menos, compreender a cegueira humana. É difícil para os videntes enxergar ou entender a essência de cada um deles, a força interior que supera obstáculos, enfrenta desafios e abre olhos... 


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


terça-feira, 6 de setembro de 2016

À procura de um herói

            Pessoas caminhando rapidamente, passando sem sequer procurar ou notar os Pokémons humanos embrulhados em trapos e pedaços de papelão, dormindo à sombra de áárvores. Zumbis atordoados pela luz do sol, protegidos da sociedade ao seu redor pelo nojo e rejeição causada por sua aparência bizarra e evidente falta de cuidados pessoais. Carente de peças raras ou originais, a praça transformando-se em um museu aberto da miséria humana. Notamos um belo gato acariciando inutilmente um corpo inerte, estupor dissociativo e ternura animal se desencontrando. Casal de namorados, presença perdida na indiferença dos caminhantes e a alienação dos residentes, vivendo sentimentos assimétricos à realidade das almas penadas na periferia dos seus sonhos.

            Perambulamos distraidamente pela Praça da Sé em busca de um momento ou uma distração que nos removesse, mesmo por um instante, da encruzilhada cruel e dos desenganos impostos ao povo brasileiro pelos residentes do hospício amoral, liderado por uma caricatura política do Doutor Simão Bacamarte, o alienista da Casa Verde de Machado de Assis. O mais louco de todos, sempre trocando civismo por cinismo.

            Descobrimos a Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, no Largo da Liberdade, o antigo Largo da Forca de São Paulo. Parte de um cemitério destinado a enterrar escravos, indígenas e infratores pobres ali executados. Preocupação da Igreja com a necessidade de proteção divina para pessoas que, em vida e por ocasião de suas mortes, enfrentaram sofrimentos e aflições próprias de sua exclusão social. Encontramos lá um herói: um soldado chamado Chaguinhas. Líder de uma insurreição contra o comando português por atrasar por cinco anos os soldos dos militares. Derrotado e submetido a julgamento, assumiu responsabilidade pelo incidente, sendo condenado à forca. Durante a execução, a corda partiu-se três vezes, fato interpretado como um ordálio divino, eventualmente foi assassinado à coronhadas. O evento nos remete a perguntar: quem são os heróis de hoje? Como vamos julga-los no futuro?


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores