NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Memória nossa de cada dia

            É pau, é pedra, é o fim do caminho/É um resto de toco, é um pouco sozinho/... Águas de Março de Tom Jobim detalha um inventário de objetos aparecendo diante dos olhos do compositor no final de uma tarde no campo. Parte do patrimônio cultural brasileiro, a canção provoca momentos de profunda reflexão, experiência única conectando um artista ao mundo mais próximo à sua realidade, e ao mundo como um todo. Objetos do cotidiano e o imaginário perpetuando uma narrativa sobre a identidade, a criatividade e a herança cultural do nosso povo.

            Patrimônio cultural é uma representação de lugares, objetos, experiências de vida e tradições, valorizados por famílias e comunidades por serem parte de elos entrelaçados conectando a ancestralidade de múltiplas gerações. O advento da globalização, a digitalização do cotidiano sem conteúdo, a desestruturação de famílias e a ausência de programas de educação patrimonial são, lamentavelmente, barreiras constantes e desincentivos à preservação. Corremos o risco de apagar, ou seja, de deletar, o senso de identidade e continuidade do nosso patrimônio, mesmo com a disponibilidade de recursos tecnológicos dos tempos modernos.

            Cultura de um povo ou de uma comunidade é diversa e inclusiva, abrigando tradições, folclore e crenças transmitidas oral ou gestualmente ao longo dos anos. Este patrimônio é especialmente vulnerável à constantes mutações e multiplicação dos seus protagonistas. A incorporação de educação patrimonial nas escolas seria um fator importante na perpetuação do patrimônio, formação da identidade cultural e reforço na autoestima de jovens vulneráveis à alienação social ou expostos a tendências negativas ao seu redor. Projetos de criação de museus eletrônicos da classe, da família ou mesmo da comunidade, por exemplo, poderiam dar continuidade, preservar valores culturais a ser espelhados por futuras gerações. A cultura é, afinal de contas, a expressão de uma nação, de suas raízes e de seu lugar na historia da humanidade.
                                                                                                     
Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores
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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Saint-Exupéry e o casarão rosado

Pedras de quartzo cor-de-rosa cobrindo a fachada do casarão, nuanças realçadas pela claridade e a intensidade do sol. Etéreo na luz do dia, misterioso na penumbra. Sem haver criado algo espetacular ou uma referência arquitetônica da cidade, o proprietário desenhara e edificara uma vivenda urbanamente confortável para Dona Carminha, sua amada. Cercada de terraços acolhedores como a indolência do balanço de uma rede de algodão. O homem chamava-se Chico, brasileiro genérico não fosse pelo fato que adotara o cognome Chico do Pilar, uma lembrança de sua terra adotiva.

Trafegamos recentemente pela esquina da casa, sua visão rosada desaparecendo do retrovisor em segundos, ficaram as lembranças. Sorriso cúmplice, notamos que a edificação desafiara o rolo compressor dos argonautas da construção civil e a lógica vertical dos desenvolvimentistas urbanos. Quase seis décadas haviam passado desde aqueles momentos de descoberta e fascinação que compartilhamos com Magdala, a filha de Chico do Pilar. Trocamos conhecimentos e opiniões, discussões norteados por divergências saudáveis sobre a ação católica do Padre Cardijn e os ensinamentos dos grandes pensadores católicos. Imbuídos pela alacridade impaciente da curiosidade de adolescente, viajávamos pelas trilhas filosóficas de Jacques e Raissa Maritain, Charles de Foucault, Antoine Saint-Exupéry, Erich Fromm e Tristão de Athayde.   

Saint-Exupéry era nosso chão comum. Seus livros buscavam a bondade em lugares distantes, espelhando os três princípios da compreensão cristã do ser humano: o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Partimos para o mundo adulto: ela optou pela militância e a resistência contra a Ditadura Militar e nós seguimos uma rota humanitária flanqueada por vitrines da miséria humana, pessoas à mercê da volubilidade da natureza e das calamitosas guerras fraticidas. “Sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei. “ Saint-Exupéry, nosso piloto quando o céu estava nublado.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Morte da pena de morte

            Execução do Casal Rosenberg se transformara em um evento seminal no debate sobre a pena de morte nos Estados Unidos. Ruídos abafados pela contaminação dos gases tóxicos do macarthismo e o antissemitismo latente da mídia e da sociedade como um todo. Surgindo na mesma década, outro condenado à pena capital, não por crimes contra o Estado, a Justiça tinha em suas mãos um criminoso comum. Chamava-se Caryl Chessman ou o Bandido da Luz Vermelha, acusado de praticar crimes de estupro e roubo, nas colinas de Hollywood. Escrevera vários livros durante os anos que passou no Corredor da Morte, livros sobre seu martírio e presumida inocência, transformando-se em ícone da campanha mundial contra a pena de morte.

Entre os mais ferventes defensores de Chessman encontrava-se Nelson Hungria, distinguido penalista e Ministro do Supremo Tribunal Federal na época. Sua posição sobre o tema foi de absoluta claridade: "O que se passou com Chessman é a confirmação do que dizia Rohland: ‘Não há homens absolutamente bons, do mesmo modo que não há caracteres absolutamente maus, ou delinquentes congênitos; por isso mesmo é possível, ao contrário do que pretendia Schopenhauer, uma modificação do caráter, ensinando a experiência que, mediante sério esforço, muitos os conseguem’. 
   
         Estudo recente realizado pela Fundação Pew, revela pela primeira vez que a pena de morte não é mais favorecida pela maioria do povo americano. Opiniões são divididas por gênero, geração e raça, os jovens de 18 a 29 anos sendo seus mais ardentes opositores. Declínio de execuções e o fato de que no corrente ano 15 pessoas cumpriram a sentença refletem o questionamento da constitucionalidade e da severidade da punição em si. Dependendo do candidato vitorioso para a presidência a questão ficará a mercê do temperamento judicial da nova composição da Corte Suprema, da orientação política do Presidente e do Congresso Nacional. A eleição de Donald Trump seria certamente um retrocesso, 79% dos republicanos são favoráveis à pena de morte.
           

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Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores