NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 25 de dezembro de 2016

Perdão, a nova arma do povo colombiano

        Encontramos nosso amigo Padre Leonel em um pequeno restaurante do bairro da Soledad em Bogotá, quase três décadas haviam passado desde a nossa despedida em Nairóbi.  Lembranças dos nossos projetos de alhures, desafios e os perigos nas estradas do deserto de Chalbi, no Quênia. Uma frase do religioso concluiu nossas reflexões sobre o passado:  A memória é o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa¨.

¨Revolución del perdon¨, o título do livro, atiçou-nos a curiosidade. Presente do autor, padre Leonel Narvaez. É preciso apagar os focos de rancor, ódio e vingança que cada um de nós leva no coração, para ter um futuro melhor a premissa principal do seu trabalho na ¨Fundación para la reconciliació. Perdão no centro do universo humano. Fonte de todas as bondades, túmulo profundo das maldades.

O Acordo de Paz entre o Governo da Colômbia e as FARC, concretizou a opção pelo caminho da paz e reconciliação. Verdade, justiça/reparação e pactos de ¨nunca mais¨ devem ser elementos básicos na implantação do complexo de processo de paz desencadeado pelo acordo histórico. A verdade teria precedência sobre a justiça punitiva que, possivelmente, levaria 100 anos para adjudicar todos os casos pendentes.

O perdão, para o Padre Leonel, é uma virtude que serve para quebrar a irreversibilidade do passado, permitindo o retorno dos ofensores à comunidade. Um processo de catarse, de transformação da memória e de construção de novas narrativas. O perdão é, portanto, uma condição indispensável para a construção de uma atmosfera propícia à reconciliação sustentável.

É impossível ter um povo unido quando seus líderes tomam decisões e impõem soluções baseadas em rancor, ódio, interesses ou vingança pessoal, sem aceitar o perdão como o único caminho para a reconciliação e o desenvolvimento. A sociedade precisa questionar o ciclo destrutivo da política contemporânea, ódios comuns formando a base das alianças políticas, como nos ensinou o grande pensador Alexis de Tocqueville.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Gorila de 800 libras

Descrevendo uma pessoa ou instituição como um gorila de 800 libras, quase 360 quilos, expressão do Inglês Americano para caracterizar algo ou alguém de índole dominadora, perigosa ou ameaçadora, originária de uma adivinhação: onde um gorila de 800 libras dorme? A resposta é clara: em qualquer lugar que ele queira!  A expressão migrou para o mundo político sendo recentemente associada ao presidente-eleito Donald Trump. Poderia ser usada também no Brasil, temos uma superpopulação da espécie, Brasília transformada no equivalente moral das montanhas de Ruanda.

Durante a Ditadura Militar chamávamos os militares de gorilas, cognome sintetizando os temores associados com a truculência, arbitrariedade e violência dos opressores do nosso povo. Uma elite política eleita democraticamente nos governa agora. As revelações da Operação Lava Jato, sugerem como um todo, que uma parte significativa das relações entre representantes eleitos e as instituições brasileiras, seja ela pública ou privada, são mutuamente corruptas ou corruptoras. Conflito de interesses, ações legislativas mascarando obstruções à justiça e obtenção de patrimônio ilícito, sustentando a governabilidade precária da nossa democracia.

Resquícios da tutela social difusa do Estado Novo, camuflados como parte do nosso Novo Estado Democrático de Direito, ananicando a capacidade da sociedade civil de organizar-se e demandar prestação de contas e cumprimento de promessas de campanhas eleitorais. Clientelismo, apadrinhamento e patrimonialismo subvertendo o processo eleitoral, privilegiando políticos financiados pela corrupção, empoderados para sentar onde bem quiser. Renan Calheiros, objeto de uma dúzia de investigações no Supremo, já está articulando sua permanência na liderança do Senado como Presidente da Comissão de Constituição e Justiça, mais um gargalo para proteger seus interesses pessoais e intimidar seus críticos.  Perguntamos então: quando teremos um Natal sem sermos presenteados com gorilas de 800 libras?


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Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O rio da desigualdade

O rio da desigualdade

            Fascinados pela vida ribeirinha, descíamos a Rua da República em direção a Ponte do Baralho, estrutura metálica sobre o Rio Sanhauá, conectando a capital com a cidade de Bayeux, outrora conhecida como “O Baralho”.  O nome estrangeiro e seu significado histórico perdidos no desvanecimento das memórias da Segunda Guerra.

Preconceitos da época sugerindo que o “outro lado” do rio era um lugar insalubre e manguezais com vetores de doenças perigosas. Observávamos da margem direita do rio o movimento das águas e de tudo que nela flutuava. Veleiros descarregando frutas e legumes, peixes e mariscos, objetos do cotidiano, mercados flutuantes de bricabraque que nos fascinavam. Sonhávamos de olhos abertos, acalentados pelo chuá-chuá das águas e o gemido monótono das cordas atando as embarcações aos molhes do Porto do Capim.

            Voltando ao rio, poucos vestígios do passado distante estavam presentes. Partindo de uma marina privada na Praia de Jacaré observamos uma variedade de embarcações de tamanhos e aparências diversas, atracados em marinas privadas bem apetrechadas e modernas. Bateaux mouches genéricos oferecendo passeios turísticos animados ao som de forró e outros regionalismos. Remanentes de bares e restaurantes fechados ou demolidos por razões ecológicas, um pano de fundo sem atrativos ou possibilidades. Soam as estrofes do Bolero de Ravel, ao pôr-do-sol. Treze minutos de pura sensualidade melódica. Voltando a anonimidade da noite, o rio dorme.

            O rio é uma mostra de contrastes e desigualdades. Pessoas vivendo em condições de extrema pobreza nas comunidades da margem esquerda, enquanto no lado oposto, temos a expansão de marinas, clubes náuticos e embarcações luxuosas. Especulação imobiliária, turismo e a lumpenização do povo acentuando as desigualdades, induzindo impactos antrópicos no meio ambiente, gerando ocupações ilegais de áreas públicas e a instalação de barracas. O rio segue mudando, nós não mudamos...

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Cerume da indiferença

Pacto de amizade entre o Capitão João Tavares e o índio Piragibe, o então morubixaba dos Índios Tabajaras, começando a história da nossa cidade. Acordo firmando no dia 5 de agosto de 1585 numa colina à direita do rio Sanhauá, confirmando o domínio português sobre a área conhecida hoje como o Centro Histórico da capital. Servindo quase quatro séculos como o âmago da vida metropolitana, antes de sua mutação para uma selva de imóveis abandonados, cursos d’água poluídos, ocupações ilegais e escassez de pujança econômica. Decadência e abandono evidenciados pelos resquícios e as sequelas do Lixão do Roger, uma monstruosidade criada pela prefeitura municipal no manguezal adjacente à margem do rio onde a cidade nascera e prosperara.

O Lixão do Roger recebera todos os resíduos sólidos produzidos na capital por mais de quatro décadas, fechando eventualmente no ano de 2003. Problemas ambientais e de saúde pública resultantes do manejo inadequado e a concomitante poluição de águas subterrâneas e fluviais, permanecendo como um impedimento à recuperação e requalificação do terreno como um parque urbano e área de lazer. Pessoas vivendo precariamente ainda são visíveis, muitos ocupadas na triagem de resíduos, crianças brincando em meio à poluição, pessoas usando o rio para lazer e a pesca expondo-se a riscos de saúde e aos efeitos letais da negligência maléfica do poder público.

Empurra-empurra entre os órgãos meio ambientais, neutralizando qualquer possibilidade de resolução dos problemas no entorno do Lixão do Roger. Alegando um problema jurisdicional, a secretaria estadual mantém uma postura de não interferência, ao mesmo tempo, a edilidade se diz incapaz de retomar o projeto do parque urbano devido a falta de dotação orçamentária e a desatualização da proposta original, limitando suas ações a investigações de denúncias de poluição. Cúmplices na destruição de mais de quatro séculos de história, sem nunca aceitar responsabilidade pela degradação ambiental causada pela poluição dos nossos rios e chão comum.


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Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores