NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 31 de dezembro de 2017

Algorítmos e o Estado Democrático

            Algoritmo é uma palavra mágica, ou pelo menos misteriosa, que se há enrustido em aspectos fundamentais do Estado Democrático de Direito. Usado como mecanismo de escolha do relator de processos na Suprema Corte (STF), o algoritmo se transformou em um elemento decisivo para a tutela de um dos direitos mais fundamentais. Disputas entre membros da Corte mostram claramente que a definição de um relator é quase sempre a definição final, muitas vezes até descumprimento de um precedente estabelecido pelo colegiado. Ceticismo sobre a aleatoriedade da distribuição dos processos aos ministros tem gerado pedidos para a divulgação do código-fonte do programa de computador usado pelo STF, todos prontamente indeferidos.

            O escritor israelense Yuval Noah Harari, autor dos livros “Homo Sapiens, "Uma Breve História da Humanidade" e de "Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã", apresentou argumentos plausíveis sobre o fenômeno que ele denomina de “dataismo” sugerindo que ele pode vir a ser a grande mutação do mundo moderno, ou seja, o predomínio dos algoritmos e das grandes bases de dados “[...] nas nossas decisões quotidianas”. Troca de e-mails, mensagens no WhatsApp, postagens ou acessos ao Face Book e ao Google, hoje fazem parte de um enorme banco de dados a seu respeito, que fica armazenado em algum lugar no ciberespaço.


            As eleições americanas de 2016 subiram a barra no uso de algoritmos para a criação de perfis e nichos eleitorais financiados por doadores milionários de candidatos do Partido Republicano. Evidência circunstancial sugere que algoritmos podem haver sido usados na criação de grupos alvo para propaganda eleitoral diferenciada, desinformação sobre as posições de candidatos liberais e disseminação massiva das chamadas “fake news”. Algoritmos e robôs usados na manipulação do eleitorado por partidários ultradireitistas do candidato Donald Trump formam o cerne das acusações de interferência russa nas eleições presidenciais e no resultado final do certame eleitoral.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores 






terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O fardo pesado de Serafim

Idoso maltrapilho, rosto suado espelhando a fadiga de carregar seu fardo, subsistindo com o mínimo necessário para enfrentar um triste cotidiano. Chamado de Serafim, o homem descansava encostado na parede da vaga reservada para pessoas deficientes, ironicamente transformando o espaço em um abrigo temporário longe de olhares curiosos. Pessoa genérica buscando refugio na sombra da farmácia.

Observamos Serafim caminhando aleatoriamente, seguindo trilhas imaginárias ao longo do meio-fio ou acostamento. Carregando um fardo pesado nas costas, seu jugo contradizendo a suavidade bíblica. Aproximamo-nos dele tentando entender a motivação ou condição de saúde mental dificultando possibilidades de compactuar com o mundo barulhento ao seu redor. A ambiguidade e o anonimato do idoso haviam criado inúmeras fantasias e lendas urbanas. Falavam que era membro de uma família diferenciada e financeiramente independente, a mais popular narrativa repetida por pessoas sugerindo familiaridade com o histórico e as andanças de Serafim. Fake News?

Serafim, a lenda, é fruto de uma postura social favorecendo a ótica que torna idosos invisíveis nas nossas ruas, principalmente aqueles que aguçam sentimentos de repulsão, vergonha ou culpa. O fato de ele não fazer abordagens ou solicitações agressivas por auxílio financeiro aumenta o mistério e a alienação social evidentes na postura deliberadamente antissocial hostil às pessoas que querem ajudá-lo.

Tentamos dialogar com Serafim. Grunhidos e mãos nervosas pediram que nos afastássemos, dissuadindo novas tentativas. Continuamos observando suas idas e vindas, sem nunca trocarmos uma palavra. Surgiram boatos da sua morte prontamente desacreditados após alguém encontrá-lo sentado no meio-fio, perdido em devaneios. Serafim é um dos muitos idosos invisíveis enfrentando os perigos e preconceitos das ruas e das calçadas, quase sempre precificados ou ignorados como excesso de bagagem social. É tempo certo de fazê-los visíveis nas nossas decisões de Ano Novo.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores




sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Sou filho de Papai Noel

            Viajando pela Turquia descobrimos que a figura de Papai Noel tem sua origem em São Nicolau de Mira, então um homem rico e religioso que ao saber que um dos vizinhos tinha se visto obrigado a prostituir suas três filhas devido à miséria jogou três sapatos cheios de ouro pela janela da casa tentando assim remediar a situação daquela família. Venerado pelos católicos por sua caridade e afinidade com as crianças. 

            Papai Noel é uma fábula irresistível que se tornou sinônimo de comemoração do Natal. O filme “Milagre na Rua 42”, relata a história de um idoso de olhos brilhantes, respeitável barriga e barba branca, que fora contratado para trabalhar como Papai Noel na maior loja de Nova Iorque. Seu sorriso fácil, bondade e simpatia contagiou a todos com o espírito caritativo do Natal. Denunciado como louco por detratores e céticos, foi submetido a julgamento no tribunal. Absolvido unanimemente após o juízo desafiar a fé de todos com a pergunta: você acredita em Papai Noel?

            Conheci meu Papai Noel na década de 1950 em uma celebração de Natal no quartel do 15o Regimento de Infantaria, meu pai tocava trombone na banda de música da corporação. Carregando um enorme saco de presentes, um velhinho barbudo, vestido de vermelho apareceu repentinamente em um jipe aberto, na companha da esposa do comandante da guarnição. Excitado com o prospecto de ser presenteado com um corte de tecido e brinquedos, nunca notei a ausência do meu pai entre os integrantes da banda tocando músicas natalinas. Descobri anos depois que ele era o Papai Noel sempre presente na vida da sua família e das crianças que ele tanto amava. 

            Pouco conhecido no Brasil, tenho dúvidas se o legado de São Nicolau de Mira serviria de inspiração ou motivação para uma vida dedicada a pessoas excluídas e crianças em situação de risco. Meu pai, o Papai Noel de todas os momentos, cumpriu sua missão sem nunca encher seus sapatos de ouro ou vacilar sobre o que era o sentido da sua vida. Feliz Natal Pai, você sempre foi nosso presente...

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores




domingo, 26 de novembro de 2017

Que país é esse?

Trocas de impropérios, atitudes fisicamente ameaçadoras, um aumento exponencial na letalidade dos confrontos entre cidadãos ou com autoridades policiais transbordando o limite mínimo de segurança esperado em um país democrático. Pondo à prova a qualidade do tecido social de um país que outrora chamava-se da terra do homem cordial, insuficiente para guarnecer-nos das intempéries do clima de violência e transgressão que nos transforma em prisioneiros do nosso próprio medo. Somos uma legião urbana, sempre perguntando: que país é esse?

Viajando pelo interior ou mesmo em áreas urbanas sempre nos preparamos ou assumimos que algo sinistro pode acontecer, prontos para testemunhar algo errado ou ter uma história para contar no fim da jornada. Celebrando ocasiões festivas, participando de atividades sociais ou profissionais, indagamos mentalmente quantos de nós chegaremos em casa ilesos ou pelo menos livres de situações constrangedoras.

Intolerância e falta de civilidade, fontes de conflitos sociais que fazem da existência urbana um purgatório para almas que simplesmente querem viver uma vida de moderada tranquilidade, conforto e respeito ao direito alheio. Pequenos incidentes do cotidiano levando pessoas a situações e posturas predispostas a um único desfecho, um vencedor e um perdedor. Bombinhas juninas convertidos em explosões letais.

Aceitamos o manto de um povo alegre, solidário e acolhedor, sem nunca questionar porque nos sentimos tão insatisfeitos ou despreparados em reconhecer a insatisfação latente que vigora nos transportes públicos, hospitais e escolas. Clamamos nossa tolerância com a diversidade porque aceitamos um numero mínimo de refugiados, enquanto falhamos em reconhecer o machismo, a homofobia e o racismo que nos oprime. Nos dizemos solidários mesmo quando remissos em defender causas coletivas ou incapazes de assumir responsabilidade cívica pelo progresso e segurança cidadã. Olhando para o chão, seguimos distraidamente a trilha para a viela da alienação social.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores
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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Maria Alice no espaço cibernético

“No vigor da minha maturidade aliei-me ao status de possuir esta máquina voadora de mensagens e assuntos repassáveis e consumidos com rapidez na onda gigantesca da modernidade [...] Compartilhar com a atualidade é algo maravilhoso”. Comentário de Maria Alice, uma amiga nonagenária cujo interesse e participação nas redes sociais realçam os benefícios e conhecimento transmitidos com uma alacridade incompatível com as limitações inerentes à terceira ou quarta idades. Magia cibernética reduzindo o déficit de inclusão e mitigando o isolamento, a solidão e outros sintomas depressivos de pessoas idosas, entrapadas na insularidade do mundo contemporâneo.

Desafiando a ideia de que a mídia social é um domínio exclusivo de gerações mais novas, idosos têm abraçado a internet entusiasticamente em números crescentes, demandando conteúdos relevantes às experiências de vida e maturidade dos usuários. Aproximação do hiato geracional entre avós e netos é indubitavelmente um dos benefícios mais visíveis e positivos da comunicação virtual participativa, fortalecendo laços de parentesco e amizade enfraquecidos pela distância, a nuclearização da família tradicional ou a falta de um equalizador social.  A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível, como disse a outra Alice, a dos Pais das.

Enquanto usuários jovens usam as redes sociais em forma de selfies, ou seja, de uma maneira mais personalizada e eminentemente pública em relação aos seus coortes, idosos usam redes sociais de uma maneira discreta de conectar-se com seus pares e obter informações sobre problemas comuns à população geriátrica. Mais importante, porém, é o processo de ressocialização desencadeado através de grupos afins e pesquisas nas páginas web direcionadas à população idosa, desde problemas de saúde até a reconexão com parceiros de alhures ou mesmo relacionamentos maduros. A internet é uma maneira de exercitar mentes, enriquecer vidas e formar relacionamentos. Parabéns, Maria Alice, por lembrar-nos que tudo é possível no espaço cibernético...

Palmarí H de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Demagogia e o politicamente correto

            Todo demagogo político precisa de um inimigo. Preferivelmente algo ou alguém que possa ser usado para direcionar, aguçar ou universalizar sentimentos de exclusão ou perseguição na psique de parte da população oposta às tendências sociais e culturais atribuídas ao politicamente correto. Retórica incendiaria menoscabando a grande mídia com acusações de subserviência a interesses especiais e apologia pelos excessos de benesses sociais, é o canivete do Exercito Suíço daqueles candidatos que extrapolam normas do comportamento público, civilidade política e respeito a seus oponentes.

            O termo politicamente correto permaneceu na penumbra do debate político até os anos 90, expressão popular em grande parte em comunidades acadêmicas que usava o termo jocosamente para caracterizar o dogmatismo de alguns ativistas. Pouco se sabe de sua origem, apesar de sugestões de parentesco com ideologias totalitárias. O termo foi popularizado nos últimos 25 anos por políticos direitistas como um vetor da “política da identidade” e valores contrários à herança judeu-cristã do mundo ocidental.

            Temos dois campos opostos sem apresentar um discernível debate programático ou partidário, as regras do jogo sendo modificadas pontualmente para acomodar o cabo-de-guerra entre o anti- politicamente correto e o anti-anti- politicamente correto. Donald Trump ganhou enfatizando sua independência e disposição de humilhar, demonizar ou diminuir minorias raciais, mulheres e deficientes, naturalizado o racismo e dando vazão a sentimentos de superioridade racial. Venceu contra o politicamente correto...

            O clima das eleições de 2018 é permeado de desencanto com a corrupção e a impunidade da classe política. Somos um povo irado, politicamente desfranqueado e desnorteado pela crise opressiva, a base de uma pirâmide eleitoral passiva a qualquer candidato capaz de equacionar e galvanizar sentimentos de antipolítica e rejeição de políticos profissionais. Em 2016, a imprensa internacional caracterizou a candidatura de Donald Trump como uma piada de mal gosto, será que vai ser a vez do Brasil em 2018?

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores