NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Menor valor pra quem?

Quinto americano a viajar ao espaço Wally Schirra Jr, protagonista em três programas espaciais comandara a nave que experimentou problemas técnicos na ignição do foguete propulsor Titan do Gemini 6, forçando o cancelamento da missão. Perguntado sobre seus pensamentos durante os momentos tensos da pane, comentou casualmente que lembrara de um detalhe especifico: o foguete e tanques de combustível “ [...] foram construídos pela companhia com a oferta mais baixa”. Descobrindo eventualmente que o problema havia sido causando por uma tomada de corrente defeituosa, justificada a ansiedade do piloto, acostumado à periculosidade da profissão.
A Operação Lava Jato e as delações da Odebrecht estão demonstrando claramente que o “menor valor” não é necessariamente o “melhor valor”. Baixando a barra da competitividade, o poder público abriu as portas para todos tipos de falcatruas e arranjos, conhecidos como cartas marcadas. Obstruindo competição aberta, os fins justificando os meios. Eventualmente aditivos contratuais, práticas corruptas e cartelização alcançando objetivos muito além do objeto do processo licitatório. Enriquecimento ilícito de políticos e empreiteiros subestimando os interesses da Nação.
Embora de menor escala, práticas envolvendo o credenciamento de pequenas empresas para serviços de educação e saúde escancaram a porta de abusos em processos licitatórios baseados no menor valor. Afloram assim pequenas empresas incorporadas tempestivamente sem nenhuma capacidade como gestor de serviços especializados, de exercer controle de qualidade, avaliação do desempenho ou responsabilidade por erros cometidos por profissionais terceirizados. Credenciamento de empresas de terceirização nem assegura isonomia com competidores que oferecem serviços técnicos profissionais, nem justifica a vantagem indevida dada através do viés do menor valor, sem primeiro assegurar que uma empresa credenciada possuí capacidade setorial e que os serviços serão prestados com devida diligência e relevância ao bem-estar da população. 

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 16 de abril de 2017

Os misseis de Trump

Críticos do estilo de gestão do Presidente Trump e seus acólitos na Casa Branca, comparando o desempenho errático dos noviços políticos com episódios dos Keystone Kops, um grupo de policiais comicamente desastrados popularizados em comédias do cinema mudo. Mantendo a retórica da campanha como um escudo protetor da falta de preparo, de curiosidade intelectual e a ira embutida nas suas decisões, o portentoso bilionário correndo o risco de transformar-se no bobo da sua própria corte

Governando e propondo políticas através de factoides e truísmos disseminados pelo Twitter e propostas esdrúxulas resultando em acachapantes derrotas no Judiciário e no Legislativo. Condenando à morte programas sociais e meio ambientais com os arabescos de sua assinatura, gestos de ilusionista e o narcisismo inerente à sua vontade de impor sua verdade a qualquer custo, mesmo com ajuda de falsidades e mentiras.

Barbárie do massacre de crianças com armas químicas apresentou uma oportunidade única para tirar os Estados Unidos do fundo do poço político e status de quase-paria, pelo anunciado desengajamento do conflito da Síria e o tratamento discriminatório de seus refugiados. Lançamento de 59 mísseis de cruzeiro contra uma base aérea parcialmente ocupada, evitando danificar as pistas usadas pelas aeronaves sírias nos ataques de gás tóxico contra populações civis. Um novo marco diplomático?

A reação bélica tempestuosa não sugere ou justifica a noção de que temos diante de nós uma nova estratégia americana no Oriente Médio após consumir o sangue de milhares de americanos e trilhões de dólares nos últimos quinze anos. Donald Trump possivelmente optará por ações similares sem considerar a sustentabilidade de uma guerra tecnológica a larga distância.  Sabedoria convencional sugere que nenhum presidente americano sofrerá desgaste político por lançar mísseis contra alvos distantes ou personalidades como Osama Bin Laden. Opção atrativa para uma personagem midiática que transforma fanfarronada em virtude e chavões eurocêntricos em verdade.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 9 de abril de 2017

Poesia na campanha, prosa no governo

            Políticos fazem campanhas em poesia e governam em prosa, celebre frase de Mario Cuomo, ex-governador do Estado de New York, continuando sua relevância mesmo depois de três décadas. Caricatura fiel do estilo de fazer política nos dias atuais, do Presidente Trump à vereadores e prefeitos de pequenas cidades do interior do Brasil. Promessas, promessas, só promessas ...

Ausência de sanções para oficiais eleitos pelo não-cumprimento de planos de metas, requeridos por leis orgânicas municipais, desvirtuam a importância e eficácia destes mecanismos de supervisão democrática. Transparência e participação popular na gestão da coisa pública requerem muito mais do que “avaliações positivas” preparadas anualmente e disseminadas pela burocracia, camuflando promessas e lançando novos bordões para justificar sua própria ineficiência.

Eleitores costumam reclamar dos gastos exagerados de governos sem nunca protestar contra benesses ou medidas populares enfraquecendo o sistema republicano de governança. Empresários aplaudem subsídios na forma de desonerações e reserva de mercados. Parte do eleitorado considera melhor valor por dinheiro investir em programas assistencialistas e a tutela do poder público sobre a população menos favorecida. Contradições minimizadas por frases e slogans fáceis de digerir. Ações do governo invisíveis para o povo notadas precariamente quando eliminadas ou restritas devido a cortes orçamentários ou mudanças em arranjos político-partidários.

Ambiguidade e hipérbole em campanhas políticas trazem promessas de afagos eleitoreiros, sugestões oblíquas de reconhecimento pela lealdade eleitoral e possibilidades de outras benesses financiadas pelo Erário. Cargos de confiança ou emendas parlamentares para financiar projetos são os principais vetores de incompetência e corrupção institucional crescente na selva da indiferença do eleitorado brasileiro. Somos nossos próprios inimigos, coautores da prosa dos oficiais eleitos.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores