NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Memórias juninas

 Abanos removendo a cinza, expondo o vermelhão das brasas. Aproximando-se sutilmente, um homem movendo os pés em sincronia. Caminhando sobre o inferno diante de nós, completando a travessia rapidamente. Sorriso maroto pregado na face morena prematuramente envelhecida, fazendo jus à alcunha de Caboclo. Fogueiras enormes produziam fumaça, faísca e ilhas de fogo vivo ao longo da Rua da Conceição. Noite de São Pedro, o toque de retirada dos festejos juninos.

Passados os anos, nossa casa transformou-se em uma espécie de quartel general de grupos de dança de quadrilhas. Roupas, partituras musicais e instrumentos simples de pouca serventia para conjuntos musicais da corrente principal da música brasileira. Pessoas humildes vindas dos pés de serra, filhos da terra queimada dos lugares pequenos onde descobriram o prazer da música que fazia arrastar chinelo e relembrar o cheiro gostoso de milho. Tenente Lucena, comandava a mistura atraente das cores e dos sons do povo. Maestro e marcador de quadrilha, Chacrinha vestido de folclorista.

Lembrança da quadrilha de Jaguaribe, nosso primeiro momento de paixão ao som de Pagode Russo: “ontem eu sonhei que estava em Moscou”. As palavras tinham pouca importância... Mãos húmidas de suor nos uniam por pequenos instantes, separados vivíamos a angústia da ansiedade da separação. Voltávamos à posição original, trocávamos olhares furtivos.  Detestávamos “trocar de dama”, não por perde-la temporariamente, mas por temermos que alguém a encontrasse, mesmo por um instante.

Dança das Cortes da Europa, a Quadrilha embarcou para o Novo Mundo na bagagem das damas e cavalheiros que regeriam nossos destinos. Salões elegantes cheirando a talco e perfume importados. Rincões eurocêntricos expondo a arrogância cultural e a ostentação palaciana. Começaram as mutações, versões populares com instrumentos de uma simplicidade sonora, no seu manuseio e sua universalidade, trouxeram a Quadrilha para as ruas. Anavan sem o returné, agora tudo era no balancé...  

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores   

terça-feira, 13 de junho de 2017

Democracia requer democratas

   Descrições coloridas por preferências politicas ou classes sociais demonstram a impossibilidade de definir precisamente o significado e, muitas vezes, a função da sociedade civil na democracia moderna. Sabemos, em termos gerais, que ela é produto da associação livre de famílias, vizinhos, grupos comunitários e cívicos, organizações sem fins lucrativos e redes sociais de milhares de variedades, como observou Alexis de Tocqueville. Comentários sobre a vitalidade e a importância do voluntariado na democracia, motivaram a explorar de perto e a converter-nos em protagonistas dos movimentos sociais na América dos anos 60.

   Levamos conosco uma bagagem de ensinamentos adquiridos na nossa juventude em João Pessoa, quando partimos em 1964. Respeito à dignidade e direito alheio, convivência democrática e comprometimento social. Valores promovidos e praticados por ¨Seu¨ Odilon no Círculo Operário de Jaguaribe e nos Escoteiros do Tenente Lucena nos prepararam para embarcar no mundo de Alexis de Tocqueville, tão estrangeiro como fascinante. A sociedade civil é a chave-mor de uma sociedade possível e de uma democracia duradoura...

   Caracterizar a sociedade civil como algo na esfera econômica ou política é incorreto e pouco democrático. Ela pertence à esfera social, lugar comum onde indivíduos se congregam para formar relações horizontais, fortalecidas pela confiança e motivando a colaboração cidadã.

   Progresso social promovido pelo estado e crescimento econômico, em muitas instâncias, ocorre à revelia da sociedade civil. Especialmente quando o crescimento e fortalecimento de associações cívicas são atrofiados pela diminuição do engajamento voluntário e pela crescente dependência dos recursos e autoridade do estado. A atrofia da sociedade civil relega o indivíduo a uma vivência conflitiva e politizada, na qual todos os caminhos levam a advogados, tribunais ou programas assistencialistas. Convocados gradual e frequentemente para exercer funções tutelares sobre pessoas vulneráveis e famílias disfuncionais.

   Recentemente nos perguntamos: Se estamos tão bem, por que nos sentimos tão preocupados? Muitos brasileiros gostariam de ter a resposta.

   Prosperidade e dificuldades em enfrentar os problemas da nossa sociedade, estão em curso de colisão. Reportagens com fatos sobre crimes, drogas, corrupção, fragmentação da família e outros males sociais, são servidas diariamente na mesma mesa, acompanhadas com notícias sobre o extraordinário desenvolvimento da economia brasileira. Tomamos a rota mais fácil, nos transformamos gradualmente em uma nação de expectadores. Decisões governadas por preferências e possibilidades de ganho pessoal. Esquecendo o bem coletivo.

   Enquanto a influência das nossas instituições sociais diminui, o estado verticaliza mais e mais suas relações com o povo. As possibilidades e benefícios de uma sociedade civil vibrante e democrática ofuscados pelo clientelismo, dependência e manipulações político-partidárias que ameaçam sua sustentabilidade e entorpecem o desenvolvimento humano em uma atmosfera de progresso cívico e social.

   A democracia é frágil, temos que lembrar sempre. Tem que ser nutrida e protegida. Sábias palavras de Benjamin Franklin, ao descrever o sistema que criaram na Convenção Constitucional dos Estados Unidos da América: [...] temos uma república, se pudermos mantê-la. Preservar uma democracia requer muito mais do que realizar eleições, legislar ou administrar a máquina do estado. Requer um número imensurável de cidadãos associados para o bem comum e capacidade de autogoverno. Democracia requer democratas.


Palmarí H. de Lucena                                  palmari@gmail.com


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Restos de uma bela cidade

         Fotos antigas de uma das artérias principais da cidade, trazendo lembranças do tempo em que eventos importantes aconteciam na passarela de paralelepípedos, entre fileiras de casarões elegantes e calçadas bem cuidadas. Estudantes caminhando languidamente observados por inspetores escolares atentos a qualquer transgressão de conduta. Em festas populares e cívicas o logradouro transformava-se em um festival de cores, aroma de comida caseira e sons difusos. As coisas mudaram, os tambores silenciaram em diminuendo prenunciando a chegada dos abutres do abandono.

          Enquanto caminhávamos pelas ruas do Centro Histórico, abrimos a cápsula do tempo com as memórias e marcos do nosso cotidiano. Passamos por quadras de imóveis antigos, muitos em processo avançado de deterioração ou pilhas de escombros. Transformados em patrimônio oficial público por tombamento, propriedade privada permanecendo fora do alcance de ações restauradoras do poder do Estado. 


         Tombamento é um ato jurídico de proteção a um bem de natureza material com base no Decreto-Lei No 25, de 1937, legislação que não implica a perda de titularidade do proprietário, que continua responsável pela manutenção e de solicitar o crivo do relevante organismo, antes de reformar ou requalificar sua propriedade. Curiosamente a data de construção do imóvel não é levada em consideração como critério primordial. 

Dezenas de imóveis tombados do Centro Histórico foram diagnosticados em situação de risco, uma consequência não intencionada da inoperância das políticas de preservação e restauração de imóveis de valor histórico ou arquitetônico. Promover o Centro Histórico como parte do roteiro turístico ignora a precária situação física e os perigos de suas ruas. É preciso eliminar gargalos burocráticos, requalificar logradouros, facilitar investimentos e executar projetos financiados antes de propor legislação de questionável praticidade, viabilizando assim um novo paradigma. Restos de uma bela cidade é a única herança que temos no momento para contar nossa história...  


Palmarí H de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores




segunda-feira, 29 de maio de 2017

Desmilitarização da segurança pública

        Feitiço da magia de manifestações pacíficas se metamorfoseando em choques violentos entre as forças da lei e a ordem e grupos de tendência anarquista, usando táticas de ação direta em contraponto ao protesto democrático e a desobediência civil não-violenta. A chamada Batalha de Seattle em 1999 deu o pontapé inicial a protestos advogando a ocupação de espaços públicos através de atos de violência, destruição do patrimônio e agressões físicas contra agentes públicos. Ocorrências recebendo atenção difusa nas “Breaking News”, redes sociais e recriminações político-partidárias.

Progressão de eventos e atitudes transformado manifestações pacíficas em enfrentamentos assimétricos entre policiais e grupos de anarquistas, tema transversal nos protestos do mundo globalizado. Manifestações violentas em várias cidades do mundo e recentemente em Brasília transformando-se em cabeças de ponte de batalhas contra causas aleatórias. Forças policiais dominadas por uma hierarquia rígida usando táticas militares para defender perímetros ou áreas públicas, também contestadas por manifestantes desafiando falanges militares apetrechadas para a repressão de tumultos.

Dúvidas frequentes sobre o modelo militarista usado para coibir manifestações, degenerando eventualmente em quebra-quebras incontroláveis, a descaracterização do protesto pacífico e a demonização das forças policiais. Burocracia e a cultura militar reforçando atitudes negativas sobre protestos e pessoas socialmente excluídas, policiais vistos como preconceituosos, corruptos, inclinados a ações violentas com armas letais.

É necessário construir um novo paradigma para a manutenção da segurança pública e a sustentabilidade da república, forjando um clima pacífico entre o povo e o poder público e entre partes divergentes dentro da sociedade civil. Desmilitarização do aparato de segurança e a formação de uma força policial moderna, inclusiva e imbuída no cotidiano das vizinhanças, criando condições favoráveis para o reestabelecimento da paz nas comunidades e a legitimidade de projetos de desenvolvimento humano.


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Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Invasão das farmácias

            Caminhando pelas ruas de Bogotá notamos que algo familiar estava faltando na bela paisagem urbana. Depois de um momento de reflexão, reconhecemos que estávamos numa cidade sem avenidas e bairros nobres decoradas por argonautas de redes de farmácias a serviço de fundos de investimentos. Pokémon devorando pequenos competidores, acirrando desigualdades entre classes sociais e aumentando a elasticidade dos privilégios desfrutados pela elite. Exuberância da expansão comercial dando vazão a teorias sobre práticas predatórias ou ocultamento de patrimônio de partes interessadas.

Liminares baseadas subjetivamente em argumentos comerciais autorizando o estabelecimento de farmácias, mesmo quando subestimando o propósito da legislação estabelecendo distâncias mínimas de 500 metros entre si. Alegando que a lei compromete o instituto de livre concorrência, defensores da expansão comercial logrando requalificar as artérias principais da cidade em corredores farmacêuticos, interesses nutridos pelo apetite incontrolável de grupos econômicos.

Confirmando a disponibilidade do medicamento, o atendente explicou a redução de preço autorizada pelo fabricante e pela farmácia, chamava-se João, nosso primeiro encontro dez anos atrás. Surpreendeu-nos um mês depois com uma chamada lembrando que era tempo de comprar o remédio, lembretes repetidos ao longo dos anos abruptamente interrompidos devido a sua transferência para outro endereço. Perdemos contato, João desaparecera no dédalo de farmácias mudando a fisionomia da cidade.

Reencontramos João trabalhando em uma nova farmácia. Nos recebeu como se fôssemos velhos amigos, feliz e entusiasmado com seus estudos de enfermagem. Em visita subsequente, soubemos estava internado em um hospital batalhando os efeitos de AIDS. A gravidade da situação evidente na tristeza profunda no ambiente de trabalho. João faleceu semanas depois. Continuamos comprando medicamentos no lugar que ora chamamos de “farmácia do João”, o nome da rede nunca foi importante.  


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Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores