NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Feira de vaidades

Elaborar e votar leis, analisar os gastos do município, votar as contas do prefeito, as principais funções de vereadores ofuscadas por uma verdadeira feira de vaidades, envolvendo a concessão de milhares de medalhas, títulos e placas a pessoas, políticos e entidades de classe. Homenagens e denominações de ruas, praças, e monumentos representando quase 40% da produção legislativa anual em vários municípios. Estes projetos complementam a baixa produtividade legislativa, camuflando a falta de proatividade da postura reativa de câmaras municipais às propostas do poder executivo.

Proliferando e banalizando a importância da concessão de títulos honoríficos de cidadão benemérito e cidadão honorário, gerando gastos extraordinários para o custeio das homenagens, muitas delas escolhas questionáveis e inapropriadas. Ações que fortalecem a impressão de falta de seriedade, desvirtuando a função primordial do legislativo municipal como a linha de frente da cidadania, inclusão social e a fonte dos frutos mais acessíveis da árvore da democracia. 

A Câmara Municipal de João Pessoa não é uma exceção, 28% dos projetos apresentados em 2015 se referiam a decretos legislativos, especificamente matérias que tinham como objetivo conceder homenagens e honrarias a pessoas e instituições. Percentual aumentando para aproximadamente 39% quando acrescentados os projetos de leis ordinárias que denominam nomes de ruas, praças, monumentos e edifícios.

Apesar de questionamentos da sociedade civil e alguns parlamentares sobre os critérios para outorgar honrarias e custear gastos relevantes, a Câmara Municipal optou por manter a prática à revelia da crise financeira e irrelevância dentre as prioridades da cidadania. Caso emblemático da desconexão entre os vereadores e a sociedade civil, a alteração do nome da Rua Princesa Isabel para homenagear um servidor da Justiça Eleitoral, um gesto de afago político ao Judiciário, subestimando o valor histórico da princesa que abolira a escravidão. A sociedade reagiu, a princesa voltou a reinar..

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Memórias juninas

 Abanos removendo a cinza, expondo o vermelhão das brasas. Aproximando-se sutilmente, um homem movendo os pés em sincronia. Caminhando sobre o inferno diante de nós, completando a travessia rapidamente. Sorriso maroto pregado na face morena prematuramente envelhecida, fazendo jus à alcunha de Caboclo. Fogueiras enormes produziam fumaça, faísca e ilhas de fogo vivo ao longo da Rua da Conceição. Noite de São Pedro, o toque de retirada dos festejos juninos.

Passados os anos, nossa casa transformou-se em uma espécie de quartel general de grupos de dança de quadrilhas. Roupas, partituras musicais e instrumentos simples de pouca serventia para conjuntos musicais da corrente principal da música brasileira. Pessoas humildes vindas dos pés de serra, filhos da terra queimada dos lugares pequenos onde descobriram o prazer da música que fazia arrastar chinelo e relembrar o cheiro gostoso de milho. Tenente Lucena, comandava a mistura atraente das cores e dos sons do povo. Maestro e marcador de quadrilha, Chacrinha vestido de folclorista.

Lembrança da quadrilha de Jaguaribe, nosso primeiro momento de paixão ao som de Pagode Russo: “ontem eu sonhei que estava em Moscou”. As palavras tinham pouca importância... Mãos húmidas de suor nos uniam por pequenos instantes, separados vivíamos a angústia da ansiedade da separação. Voltávamos à posição original, trocávamos olhares furtivos.  Detestávamos “trocar de dama”, não por perde-la temporariamente, mas por temermos que alguém a encontrasse, mesmo por um instante.

Dança das Cortes da Europa, a Quadrilha embarcou para o Novo Mundo na bagagem das damas e cavalheiros que regeriam nossos destinos. Salões elegantes cheirando a talco e perfume importados. Rincões eurocêntricos expondo a arrogância cultural e a ostentação palaciana. Começaram as mutações, versões populares com instrumentos de uma simplicidade sonora, no seu manuseio e sua universalidade, trouxeram a Quadrilha para as ruas. Anavan sem o returné, agora tudo era no balancé...  

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores   

terça-feira, 13 de junho de 2017

Democracia requer democratas

   Descrições coloridas por preferências politicas ou classes sociais demonstram a impossibilidade de definir precisamente o significado e, muitas vezes, a função da sociedade civil na democracia moderna. Sabemos, em termos gerais, que ela é produto da associação livre de famílias, vizinhos, grupos comunitários e cívicos, organizações sem fins lucrativos e redes sociais de milhares de variedades, como observou Alexis de Tocqueville. Comentários sobre a vitalidade e a importância do voluntariado na democracia, motivaram a explorar de perto e a converter-nos em protagonistas dos movimentos sociais na América dos anos 60.

   Levamos conosco uma bagagem de ensinamentos adquiridos na nossa juventude em João Pessoa, quando partimos em 1964. Respeito à dignidade e direito alheio, convivência democrática e comprometimento social. Valores promovidos e praticados por ¨Seu¨ Odilon no Círculo Operário de Jaguaribe e nos Escoteiros do Tenente Lucena nos prepararam para embarcar no mundo de Alexis de Tocqueville, tão estrangeiro como fascinante. A sociedade civil é a chave-mor de uma sociedade possível e de uma democracia duradoura...

   Caracterizar a sociedade civil como algo na esfera econômica ou política é incorreto e pouco democrático. Ela pertence à esfera social, lugar comum onde indivíduos se congregam para formar relações horizontais, fortalecidas pela confiança e motivando a colaboração cidadã.

   Progresso social promovido pelo estado e crescimento econômico, em muitas instâncias, ocorre à revelia da sociedade civil. Especialmente quando o crescimento e fortalecimento de associações cívicas são atrofiados pela diminuição do engajamento voluntário e pela crescente dependência dos recursos e autoridade do estado. A atrofia da sociedade civil relega o indivíduo a uma vivência conflitiva e politizada, na qual todos os caminhos levam a advogados, tribunais ou programas assistencialistas. Convocados gradual e frequentemente para exercer funções tutelares sobre pessoas vulneráveis e famílias disfuncionais.

   Recentemente nos perguntamos: Se estamos tão bem, por que nos sentimos tão preocupados? Muitos brasileiros gostariam de ter a resposta.

   Prosperidade e dificuldades em enfrentar os problemas da nossa sociedade, estão em curso de colisão. Reportagens com fatos sobre crimes, drogas, corrupção, fragmentação da família e outros males sociais, são servidas diariamente na mesma mesa, acompanhadas com notícias sobre o extraordinário desenvolvimento da economia brasileira. Tomamos a rota mais fácil, nos transformamos gradualmente em uma nação de expectadores. Decisões governadas por preferências e possibilidades de ganho pessoal. Esquecendo o bem coletivo.

   Enquanto a influência das nossas instituições sociais diminui, o estado verticaliza mais e mais suas relações com o povo. As possibilidades e benefícios de uma sociedade civil vibrante e democrática ofuscados pelo clientelismo, dependência e manipulações político-partidárias que ameaçam sua sustentabilidade e entorpecem o desenvolvimento humano em uma atmosfera de progresso cívico e social.

   A democracia é frágil, temos que lembrar sempre. Tem que ser nutrida e protegida. Sábias palavras de Benjamin Franklin, ao descrever o sistema que criaram na Convenção Constitucional dos Estados Unidos da América: [...] temos uma república, se pudermos mantê-la. Preservar uma democracia requer muito mais do que realizar eleições, legislar ou administrar a máquina do estado. Requer um número imensurável de cidadãos associados para o bem comum e capacidade de autogoverno. Democracia requer democratas.


Palmarí H. de Lucena                                  palmari@gmail.com