NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 30 de julho de 2017

Autêntica guerreira do povo

            Estrutura de um restaurante popular contrapondo-se à silhueta cinzenta, serras em mutação para um espetáculo de belos matizes da escala tonal dourada cobrindo a Borborema Potiguar, simplificando desafios topográficos e escondendo as poucas estrelas penduradas na imensidão do céu. Transitando pela estrada alguns carros, luzes distantes de pequenas casas bruxuleando no horizonte, aves à procura de refúgio das nuvens negras devorando impiedosamente a luminosidade do entardecer. Brilhando longe, bem longe, uma Lua Nova, a mãe de todas as mudanças e possibilidades ...

 Conversando animadamente, duas mulheres na penumbra da parte posterior do restaurante, perfis transformados em camafeus dourados. Enfatizando a materialidade de suas palavras, gestos de mãos bailando no espaço sem projetar ou pelo menos sugerir uma animação para a narrativa. Lugar simples sem nenhuma pretensão decorativa ou marco diferenciado na escala social ou comercial, seu terraço tinha o mais belo pôr do sol entre as cidades potiguares de São Bento da Serra e Monte das Gameleiras.

A pujança do sol nos guiou até uma placa na beira da estrada: Galinha da Serra. Asseverando uma posição de proeminência na vida gastronômica e na geografia turística da microrregião. Encontramos ali Dona Aparecida, conhecida por todos como Cida, o griô do Sitio de Cacimba de Cima. Narrou a saga de uma família de agricultores que se transformara em bem-sucedidos proprietários de uma marca lucrativa.

 Tudo começara na tempestuosa visita de um engenheiro, procurava alguém que preparasse uma galinha de cabidela no estilo campestre. Após inúmeras recusas, Cida concordou. Demanda pelas iguarias produzidas na sua cozinha forçaram a expansão do pequeno negócio em um restaurante formal. Vendendo todos seus animais e bens de subsistência a família se autofinanciou à revelia dos temores de insucesso, da indiferença do poder público e das incertezas da economia. Triunfou, uma autêntica guerreira do povo brasileiro!


--> Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

Um paradigma de razão

Cidadãos bem informados e principalmente interessados na coisa pública são essenciais para a democracia. O jornalismo como um todo e o jornalismo de opinião em particular têm o papel crucial de provocar na opinião pública reações e argumentos que favoreçam os seus interesses. De vocação inerentemente argumentativa e doutrinária, torna-se fundamental que seus praticantes sigam um principio básico de Jurgen Habermas: “ [...] O que é dito tem sua legitimidade não de si mesmo como mensagem, tampouco do status social de quem a proferiu, mas da sua conformidade enquanto declaração baseada num paradigma de razão registrada no momento do relato”...

Para Habermas, a esfera pública representa uma faceta do social que atua como mediadora entre o Estado e a sociedade, que se organiza como portadora da opinião pública desde que exista a liberdade de expressão, de reunião e de associação. O jornalismo de opinião funciona como uma incubadora na formação da uma sociedade civil pungente, seus membros mais participativos quando devidamente informados sobre as temáticas que os afetam, direta ou indiretamente, enriquecem a esfera pública.

Páginas de opinião são importantes para uma democracia. São importantes porque seus colunistas podem estar entre os jornalistas mais efetivos em preencher o propósito principal do jornalismo: dar ao cidadão a informação necessária para faze-lo livre e auto gestionário. A leitura de seus jornalistas deveria ajudar pessoa a pensar sobre as notícias, criando incentivos para um exame mais crítico e independente.  

Espaços livres de opinião em jornais estimulam a diversidade, permitindo publicação de artigos com conteúdo extrapolando os limites empresariais e editoriais de um periódico. Servindo como um prumo no meio de um mundo midiático dominado por bocados de noticias instantâneas ou as famosas fake-news das redes sociais. Devemos assegurar o propósito e a liberdade inerente ao jornalismo de opinião e não banalizar seu impacto com artigos de vaidade pessoal ou interesses particulares ou profissionais.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 23 de julho de 2017

Em busca do Pavão Misterioso


Contrastando a mesmice verde do campo irrigado pelas chuvas, um casarão branco com janelas azuis e pequena capela servindo como contraponto para as trilhas lamacentas esculpidas por veículos e carroças. Moradores sentados no degrau de uma pequena casa observando o tédio cinzento de um cotidiano sem grandes possibilidades. Único resquício do progresso prometido, uma motocicleta pobremente ornamentada, sonhos frustrados pelos homens que viviam bem longe daqui. Estávamos em Pilõezinhos, berço do visionário criador do Pavão Misterioso.

Sentíamo-nos irremediavelmente seduzidos pelos movimentos da gangorra entre o tempo e o espaço, como se estivéssemos viajando por terras distantes na maravilha mecânica de João Evangelista. Fantasias desafiando o obvio, verdades desaparecendo entre o consciente e o inconsciente. Outro viajante nosso favorito Peer Gynt, buscara incessantemente a autoafirmação que ele próprio nunca compreendera. Delírios poéticos transformando-se em antídoto para seu medo da vida e do amor. Imaginamos um encontro entre os dois viajantes, a lógica do evento escapando intempestivamente no labirinto verde-cinzento do surto imaginário que nos afligira, enquanto bailávamos nervosamente pelos deslizes e perigos da travessia pelo mar de lama. 

Encontramos um grupo de jovens caminhando cautelosamente nas trilhas alagadas, encostas escorregadias. Versões populares de roupas de personagens de novelas, insuficientes para protege-las das intempéries da natureza. Mochilas carregadas de livros e boia fria, chinelos genéricos expondo a capilaridade da pobreza prelúdio de vidas adultas complicadas. Bela plumagem e pés feios, nação distante dos sonhos de adolescentes marchando aos ruídos alegres de suas vozes, quebrando a melancolia dos campos e serras dos seus cotidianos. Ora vivendo sonhos de viagens pelos céus, ora dispensando a donzela Creusa de João Evangelista pela Princesa Frozen de Walt Disney. Qualquer que fosse a escolha, sempre teriam a herança do Pavão Misterioso...   

Palmarí H de. Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 16 de julho de 2017

Ao encontro de João Emídio

            Seguíamos os meandros da estrada atravessando a caatinga subdesértica do Seridó, roteiro cinematográfico carente de grandes atrações. Pessoas e veículos apareciam esporadicamente, quase imperceptíveis, poucas possibilidades de um olhar furtivo ou mesmo um aceno. Avistamos uma porteira aberta, lixo espalhado aleatoriamente no acostamento, pequena carroça aguardando nossa passagem quebrando a hegemonia da paisagem. Cone majestoso da Serra de Mulungu brotando na superfície da planície, outras formações geológicas distribuídas por campos rochosos heterogêneos nenhum rivalizando o misticismo, santos e demônios escondidos nas suas entranhas.

Descendo uma ladeira avistamos as duas torres da igreja, ruas decoradas com balões e fitas coloridas, pessoas em cadeiras nas calçadas observando placidamente os movimentos dos poucos pedestres que se atreviam a se expor ao calor sufocante. Havíamos chegado na pequena cidade de São João do Sabugí, João Emídio, meu pai, descrevia o lugar onde passara sua juventude como se fosse algo mágico, uma espécie de Macondo particular. Aromas de comida caseira, bordados artesanais, casas pintadas e redecoradas para a festa do padroeiro. Passamos nossas vidas ouvindo contos e histórias de Trancoso, onças ferozes, águias turunas, aparições misteriosas... Apresentações teatrais na igreja e as sempre presentes retretas faziam parte do nosso imaginário. 

Todas casas têm suas histórias ou são identificadas pelos ocupantes de alhures. Na casa no 13 da rua principal vivera Josias Tobias, meu avô, um casarão branco, símbolo dos bons tempos, que pertencera a um abastando comerciante de algodão Mocó, no sobrado próximo à igreja vivera o Maestro Honório Maciel, o fundador da filarmônica, hoje transformado em algo moderno. Royal Cinema, valsa gravada na memória coletiva de velhas paixões da bela época do Seridó algodoeiro. Começaríamos aqui o resgate do legado do meu pai, João Emídio, o corneteiro que subira na torre da igreja para antecipar o presumido avanço do bando do cangaceiro Antônio Silvino.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores