NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 23 de julho de 2017

Em busca do Pavão Misterioso


Contrastando a mesmice verde do campo irrigado pelas chuvas, um casarão branco com janelas azuis e pequena capela servindo como contraponto para as trilhas lamacentas esculpidas por veículos e carroças. Moradores sentados no degrau de uma pequena casa observando o tédio cinzento de um cotidiano sem grandes possibilidades. Único resquício do progresso prometido, uma motocicleta pobremente ornamentada, sonhos frustrados pelos homens que viviam bem longe daqui. Estávamos em Pilõezinhos, berço do visionário criador do Pavão Misterioso.

Sentíamo-nos irremediavelmente seduzidos pelos movimentos da gangorra entre o tempo e o espaço, como se estivéssemos viajando por terras distantes na maravilha mecânica de João Evangelista. Fantasias desafiando o obvio, verdades desaparecendo entre o consciente e o inconsciente. Outro viajante nosso favorito Peer Gynt, buscara incessantemente a autoafirmação que ele próprio nunca compreendera. Delírios poéticos transformando-se em antídoto para seu medo da vida e do amor. Imaginamos um encontro entre os dois viajantes, a lógica do evento escapando intempestivamente no labirinto verde-cinzento do surto imaginário que nos afligira, enquanto bailávamos nervosamente pelos deslizes e perigos da travessia pelo mar de lama. 

Encontramos um grupo de jovens caminhando cautelosamente nas trilhas alagadas, encostas escorregadias. Versões populares de roupas de personagens de novelas, insuficientes para protege-las das intempéries da natureza. Mochilas carregadas de livros e boia fria, chinelos genéricos expondo a capilaridade da pobreza prelúdio de vidas adultas complicadas. Bela plumagem e pés feios, nação distante dos sonhos de adolescentes marchando aos ruídos alegres de suas vozes, quebrando a melancolia dos campos e serras dos seus cotidianos. Ora vivendo sonhos de viagens pelos céus, ora dispensando a donzela Creusa de João Evangelista pela Princesa Frozen de Walt Disney. Qualquer que fosse a escolha, sempre teriam a herança do Pavão Misterioso...   

Palmarí H de. Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 16 de julho de 2017

Ao encontro de João Emídio

            Seguíamos os meandros da estrada atravessando a caatinga subdesértica do Seridó, roteiro cinematográfico carente de grandes atrações. Pessoas e veículos apareciam esporadicamente, quase imperceptíveis, poucas possibilidades de um olhar furtivo ou mesmo um aceno. Avistamos uma porteira aberta, lixo espalhado aleatoriamente no acostamento, pequena carroça aguardando nossa passagem quebrando a hegemonia da paisagem. Cone majestoso da Serra de Mulungu brotando na superfície da planície, outras formações geológicas distribuídas por campos rochosos heterogêneos nenhum rivalizando o misticismo, santos e demônios escondidos nas suas entranhas.

Descendo uma ladeira avistamos as duas torres da igreja, ruas decoradas com balões e fitas coloridas, pessoas em cadeiras nas calçadas observando placidamente os movimentos dos poucos pedestres que se atreviam a se expor ao calor sufocante. Havíamos chegado na pequena cidade de São João do Sabugí, João Emídio, meu pai, descrevia o lugar onde passara sua juventude como se fosse algo mágico, uma espécie de Macondo particular. Aromas de comida caseira, bordados artesanais, casas pintadas e redecoradas para a festa do padroeiro. Passamos nossas vidas ouvindo contos e histórias de Trancoso, onças ferozes, águias turunas, aparições misteriosas... Apresentações teatrais na igreja e as sempre presentes retretas faziam parte do nosso imaginário. 

Todas casas têm suas histórias ou são identificadas pelos ocupantes de alhures. Na casa no 13 da rua principal vivera Josias Tobias, meu avô, um casarão branco, símbolo dos bons tempos, que pertencera a um abastando comerciante de algodão Mocó, no sobrado próximo à igreja vivera o Maestro Honório Maciel, o fundador da filarmônica, hoje transformado em algo moderno. Royal Cinema, valsa gravada na memória coletiva de velhas paixões da bela época do Seridó algodoeiro. Começaríamos aqui o resgate do legado do meu pai, João Emídio, o corneteiro que subira na torre da igreja para antecipar o presumido avanço do bando do cangaceiro Antônio Silvino.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 11 de julho de 2017

Abandono dos mercados públicos

             Condenados a funcionar em locais inseguros, infraestrutura inadequada para a comercialização dos seus produtos, operando em condições insalubres, os mercados públicos da cidade apresentam sinais de decadência e risco de inviabilidade econômica.  Falta de gestores profissionais, suposta ingerência política na nomeação de administradores, obtenção de crachás de ambulantes para cabos eleitorais e o virtual abandono das áreas dos mercados evidenciam o descompromisso do poder público com os comércios e consumidores deste segmento, uma importante fonte de geração de empregos.
O exemplo mais grave do abandono da gestão municipal é o chamado Mercado Modelo no coração do Centro Histórico. Demolido pela Prefeitura em 2012, desalojados os comerciantes migraram para outra praça em frente ao Terminal do CBTU, estabelecendo a chamada Feira da Troca. Carentes de infraestrutura física, os comerciantes retornaram ao antigo local próximo ao Terminal Rodoviário em 2014. Local transformado num antro de criminalidade, tráfico de drogas e venda de objetos roubados, comércio ilegal viabilizado pela inoperância de uma gestão municipal mais interessado em remir-se de qualquer responsabilidade no empurra-empurra com o Governo do Estado.
Estivemos recentemente em vários pavilhões com produtos perecíveis e áreas abertas de comercialização de frutas e verduras do Mercado Central. Nos deparamos com monturos de lixo orgânico, esgoto correndo ao céu aberto, paredes e telhados danificados, falta de instalações sanitárias adequadas e proliferação de barracas na parte posterior dos edifícios principais, um caso de miséria escondida no quintal. A sociedade demanda proatividade da Prefeitura e a Câmara Municipal no desenvolvimento de ações inovadoras para a reabilitação sustentável dos mercados públicos e de áreas nos seus entornos.  


--> Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


sábado, 8 de julho de 2017

Prisões ou asilos?

            Prisões transformadas em asilos para um grande número de apenados sofrendo transtornos mentais graves, muitos com problemas conexos de dependência química, especialmente crack. Problema prevalente em vários países com políticas avançadas de desinstitucionalização de pacientes psiquiátricos, aumento da oferta de tratamento ambulatorial e apoio à reintegração na comunidade. Reformas subestimadas pela desassistência na área de saúde mental, escassez de centros de tratamento em comunidades e crescimento de fatiga de compaixão causada pela alta criminalidade.

            País pioneiro da reforma psiquiátrica, os Estados Unidos apresentam hoje um quadro devastador do encarceramento de pessoas sofrendo de doenças como esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e depressão maior. Acesso limitado a procedimentos mais humanos e métodos mais eficazes de tratamento, pondo pessoas com sérios distúrbios nas mãos de autoridades policiais e eventual encarceramento. Estima-se que mais da metade dos encarcerados sofre de alguma forma de problema de saúde mental. Uma sociedade que detestava a ideia de confinar doentes mentais em asilos aceitando passivamente a ideia de mantê-los sem tratamento em prisões.

Devido a um entendimento equivocado sobre a inimputabilidade do doente mental pelo nosso sistema de justiça criminal, muitas pessoas com transtornos mentais que cometeram delitos sérios devido às suas enfermidades, cumprem pena no sistema prisional comum, em grande parte sem assistência para seus problemas de saúde.

Criminalidade incipiente no sistema prisional brasileiro misturada com problemas de saúde mental, são ingredientes críticos na poção diabólica da bruxa da violência e barbárie disponível nos nossos presídios. Enviar tropas federais, separar fracções criminosas ou medidas disciplinares não são suficientes para transformar presídios em lugares seguros para apenados e para oferecer genuínas possibilidades de reabilitação e eventual reinserção produtiva em suas comunidades.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores