NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 16 de julho de 2017

Ao encontro de João Emídio

            Seguíamos os meandros da estrada atravessando a caatinga subdesértica do Seridó, roteiro cinematográfico carente de grandes atrações. Pessoas e veículos apareciam esporadicamente, quase imperceptíveis, poucas possibilidades de um olhar furtivo ou mesmo um aceno. Avistamos uma porteira aberta, lixo espalhado aleatoriamente no acostamento, pequena carroça aguardando nossa passagem quebrando a hegemonia da paisagem. Cone majestoso da Serra de Mulungu brotando na superfície da planície, outras formações geológicas distribuídas por campos rochosos heterogêneos nenhum rivalizando o misticismo, santos e demônios escondidos nas suas entranhas.

Descendo uma ladeira avistamos as duas torres da igreja, ruas decoradas com balões e fitas coloridas, pessoas em cadeiras nas calçadas observando placidamente os movimentos dos poucos pedestres que se atreviam a se expor ao calor sufocante. Havíamos chegado na pequena cidade de São João do Sabugí, João Emídio, meu pai, descrevia o lugar onde passara sua juventude como se fosse algo mágico, uma espécie de Macondo particular. Aromas de comida caseira, bordados artesanais, casas pintadas e redecoradas para a festa do padroeiro. Passamos nossas vidas ouvindo contos e histórias de Trancoso, onças ferozes, águias turunas, aparições misteriosas... Apresentações teatrais na igreja e as sempre presentes retretas faziam parte do nosso imaginário. 

Todas casas têm suas histórias ou são identificadas pelos ocupantes de alhures. Na casa no 13 da rua principal vivera Josias Tobias, meu avô, um casarão branco, símbolo dos bons tempos, que pertencera a um abastando comerciante de algodão Mocó, no sobrado próximo à igreja vivera o Maestro Honório Maciel, o fundador da filarmônica, hoje transformado em algo moderno. Royal Cinema, valsa gravada na memória coletiva de velhas paixões da bela época do Seridó algodoeiro. Começaríamos aqui o resgate do legado do meu pai, João Emídio, o corneteiro que subira na torre da igreja para antecipar o presumido avanço do bando do cangaceiro Antônio Silvino.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

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