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terça-feira, 15 de maio de 2018

Cristãos invisiveis


Carrocinhas precárias, puxadas por burros, coletam quase um terço do lixo do Cairo. Mais de 2.500 toneladas diariamente. Os catadores de lixo, de trinta a quarenta mil pessoas “vivendo do lixo”, chamados de “zabbaleen”, na maioria cristãos cópticos, vivem ou trabalham em verdadeiras pirâmides, lixões de quase três andares de altura.  Os homens coletam, as mulheres e crianças separam. Marginalizados pela inobservância de costumes islâmicos, como a criação e consumo de carne suína e contato direto com matéria orgânica. A Igreja Copta é a maior comunidade cristã no Egito, data do ano 61 D.C., quando São Marcos introduziu o Cristianismo.  

            Partimos do Cairo em direção de Assyut, no sul do vale do Rio Nilo. Levamos conosco o odor do lixo, até o fim da viagem. Visitaríamos comunidades cópticas, localizadas ao longo da rota usada pela Sagrada Família, quando fugiram da persecução do Rei Herodes... em um burrinho. Assyut é a cidade de maior concentração de cristãos cópticos no país. Venerada por cristãos e muçulmanos, por ter abrigado a Sagrada Família, por mais de três anos em uma gruta, num lugar chamado Dronka.

            Diante de uma casa simples, notamos uma mesa feita com uma tábua apoiada em duas latas. Continha apenas três pirâmides de tomates. Parecia uma expressão modesta para evitar curiosidade. Olho gordo! Varias mulheres se aproximaram. Vociferavam em direção a Mariam, a dona dos tomates. Mais sinais de desrespeito. Uma batalha de tomates começou, as pirâmides desapareceram. Mariam fechou a porta.

            Mariam havia vencido, tornou-se uma microempresária. Vivia só, o marido era um "zabbaleen" no Cairo. Seus desafetos temiam que ela tomasse seus maridos, por ser afluente; outras a acusavam de mau exemplo para suas filhas e de comportar-se como homem. Um inferno na terra. Uma mistura de mudança e continuidade. Decidimos partir. Uma mulher montada num burrinho passou silenciosamente, rosto virado na direção oposta. Mais uma Mariam escapando dos seus algozes...  Inshallah!

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


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